21/01/10

Pessoas que nos marcam

Não me lembro da primeira vez que o vi, mas a sua imagem povoou-me a infância e a adolescência, para depois se afirmar para o resto da vida, no rasto de uma memória indizível.
Quando nos cruzávamos sorria-me sempre e eu temia-o. Não um temor de quem se retrai pela austeridade ou despotismo de outrem, mas de quem se acanhava pela própria timidez, e sobretudo pela generosidade sublime daquele homem.
Eu era uma menina e ele já avô. Pouco me falava, para além daquele cuidado cordial que lhe assentava no rosto uma expressão afável. Por isso, quando um dia me chamou para dentro do consultório, não podia imaginar o que seria. Numa atitude quase solene pediu que me sentasse, tirou os óculos de sol que lhe cobriam uma extensa parte de um rosto triangular - ainda hoje, passados 20 anos retenho nitidamente a imagem do seu rosto - onde a fronte se destacava, sobranceiramente, a um sorriso espontâneo e genuíno.
- Soube que lês muito... - começou por dizer-me sem arredar o sorriso. Penso que lhe respondi cabisbaixa e em silêncio.
- Que é que tu lês ? - insistia ele, e eu não tive outra escolha senão a de responder, receosa de que censurasse o que lia, mas também expectante de que o aprovasse. Não fez nem uma coisa nem outra, limitou-se a dizer-me:
- Vou trazer-te alguns livros para leres, 1 ou 2 de cada vez. Se gostares, trago-te mais e até podes ir lá a casa escolher os que quiseres. - e como se o meu silêncio tímido, que o meu olhar traía, denunciando o meu imenso contentamento, lhe tivesse respondido, concluiu: - Dou-os à tua mãe para tos entregar, pode ser?

E cumpriu. No dia seguinte chegou-me às mãos o primeiro livro capaz de questionar e revolver o meu pequeno mundo: A cabana do pai Tomás! Era uma incursão diferente para mim, que até então lia os romances da época, de colecções de meninas exemplares ou de aventuras dos cinco e dos sete, e alguma poesia infantil... e eis que o pai Tomás me encheu de um sentimento novo, a revolta, e novos conceitos, o da igualdade, o da justiça...
E depois vieram mais livros.... Inês vai morrer foi o segundo, e deparar-me assim com a luta de uma mulher por um colectivo que se sobrepunha aos seus interesses individuais foi uma espécie de iniciação mágica pelos valores que viria a abraçar pouco depois.
Seguiram-se tantos outros nessa travessia, os romances do Júlio Dinis, as novelas do Erico Veríssimo, os livros do Eça, o mais célebre livro do Namora, a obra do Virgílio Ferreira, do Manuel da Fonseca, do Aquilino,do Jorge Amado, do Morris West e de tantos outros, culminando, para mim, no Máximo Gorki e no Soeiro Pereira Gomes. Pelo meio, a poesia, a que já antes entregava horas absortas, que se sumiam na contemplação de ideias e sentimentos, assim impressas por uma colagem de palavras que se transmutavam e percorriam a alma em corrupio, embalando-nos num ritmo, que não raras vezes, culminava num suspiro... ou numa lágrima.

Este homem, sem saber e talvez sem querer, determinou o meu trilho pelos anos que se seguiram até hoje, como se tivesse desenhado, naquele dia, toda a minha existência.
Por estes dias, recordo o último dia em que o vi ,antes de partir. Entrava sempre apressado no consultório, cingindo-se a um cumprimento breve a quem o esperava.
Perguntou-me:
- Como vai o curso?- Os anos haviam passado mas eu ainda me detinha perante a sua grandiosidade, não só corporal- O dr. Fernando era alto, esguio, com um cabelo de neve- mas sobretudo intelectual e humana. - Continuas a ler?- continuou ele. E acho que pela primeira vez consegui desvelar-lhe um grande sorriso, que naquele instante narrou e selou a cumplicidade que, enfim, nos unia: o mesmo IDEAL!

E por saber que ele gostava deste poema, mesmo sem alguma vez mo ter dito, é que hoje inscrevo aqui, para ele, para o Camarada Fernando M. Azeredo Pais (o Sr. dr. é comunista, repetia-me a minha mãe tantas vezes...), estes versos do Torga:

Rendição

Vem camarada, vem
render-me este sonho de beleza!
Vem olhar de outro modo a natureza
e cantá-la também

Ergue o teu coração como ninguém;
Fala doutro luar, doutra pureza;
tens outra humanidade, outra certeza:
leva a chama da vida mais além!

Até onde podia , caminhei.
Vi a lama da terra que pisei,
e cobri-a de versos e de espanto.

Mas, se o facho é maior na tua mão
vem camarada irmão,
erguer sobre os meus versos o teu canto.

3 comentários:

Fernando Samuel disse...

Belo itinerário literário - e bela oferta ao camarada Dr.

Um beijo.

Mar Arável disse...

Tudo muito belo

Bjs

smvasconcelos disse...

Fernando Samuel: Ele ofereceu-me muito mais...:)
Beijo,

Mar Arável: ... é muita saudade. bjs,