21/11/09

Poema do Gato

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?
Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta pra trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre pra mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.
Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

António Gedeão *

É um dos poetas que mais gosto, talvez porque teatralizei muito cedo alguns dos seus poemas, e tornaram-se, para mim , inesquecíveis : " Calçada de carriche", "Lágrima de preta", "Pedra filosofal", entre outros, e, claro, este "Poema do gato".
Porque ao contrário do poeta, eu tenho gato. :)

18/11/09

o AMIGO Lança

O AMIGO de um amigo partiu... mal o conheci pessoalmente, mas durante quase três anos convivi com a sua presença, exprimida pelas repetidas remetências ao seu nome. O meu amigo exaltava diariamente o "Lancinha", como lhe chamava, ou o "senhor arquitecto", sem que o "Lancinha" tivesse arquitectado alguma coisa, a não ser a grande Amizade que os unia. Todos os dias regavam a "frondosa árvore" da amizade, repetindo rituais e rotinas que passavam por aparentes insignificâncias: mensagens escritas ao acordar, jocosas e provocatórias, a comentar as derrotas do Benfica (para gáudio de um) ou as vitórias do Nacional (para folgança do mesmo); a disparatar sobre a política e despropositar no governo e nos ministros... Esta era uma amizade que se alimentava diariamente à distância que permeia Beja e Viseu. Por várias vezes assisti a conversas telefónicas entre os dois e aqueles minutos eram uma festa, as gargalhadas manavam estridentes e a ironia cómica que as distinguia era contagiante. Era afinal a expressão de uma amizade que nascera há tantos anos no Alentejo e que não se perdera na sucessão de dias que nos remetem para tão longe dos afectos...
Só vi o "Lancinha" uma vez, em Setúbal, mas era como se já o conhecesse. Foi fugaz o nosso encontro, ficou-me na memória um homem simples, sempre risonho, com aquela bonomia alentejana gravada no rosto. Hoje partiu, deixando o meu amigo inconsolável. Há pouco recordava-o comigo, ao telefone, e demos por nós a rir do humor do "Lancinha", das mensagens do "camarada Lança", como era também tratado pelo meu amigo, das peripécias dos seus amores, das histórias que viveram juntos... E rimo-nos. Como a camuflar as lágrimas que o meu amigo não verteu, mas que sei que as solta em surdina...

Horário do Fim

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento

Mia Couto


A todos e a cada um dos meus amigos

Por um por todos por nenhum
faço o meu canto a minha mágoa
num desencanto aberto pelo gume
deste pranto tão limpo como a água.
(...)

Joaquim Pessoa

Até sempre "Lancinha"!

A Utopia serve para caminhar!



" A Utopia está lá no horizonte.
Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a Utopia?
Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.
"

Eduardo Galeano *

* Escritor uruguaio e jornalista de propensão política, viveu no exílio na sequência do golpe militar no Uruguai. Pensador e homem da cultura, teve como marco na sua obra o célebre livro " As veias abertas da América Latina" (que Chávez ofertou a Obama, publicamente, numa cimeira).

15/11/09

É definitivamente proibido!

Pablo Neruda
Queda prohibido llorar sin aprender,
Levantarte un día sin saber que hacer,
tener miedo a tus recuerdos...

Queda prohibido no sonreir a los problemas,
no luchar por lo qui quieres,
Abandonarlo todo por miedo,
No conventir en realidade tus sueños,...

Queda prohibido no intentar comprender
a las personas,
pensar que sus vidas valen menos que la tuya,
no saber que cada uno tiene su camino y su dicha...


Queda prohibido no crear tu historia,
no tener un momento para la gente que te necesita,
no comprender que lo que la vida te da,
tambien te lo quita ...

Queda prohibido, no buscar tu felicidad
no vivir tu vida con una actitud positiva
no pensar en que podemos ser mejores,
no sentir qui sin ti, este mundo no sería igual...


Um grande poema que me foi enviado por um amigo, via e-mail, um apelo veemente à força intrínseca que nos compõem, para que se materialize na LUTA pela qual cada um de nós é responsável...

14/11/09

Ode à Paz


Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!
Natália Correia
Hoje, a esta hora, em Lisboa, decorre uma marcha mundial pela paz, uma festa multicultural com marcha desde o Marqûes até ao Martim Moniz. Estas iniciativas nunca são em demasia num mundo que se almeja melhor, muito melhor...
E ao invés do que se pense ou se diga, fazem diferença, sim!, mesmo que essa diferença possa parecer pouco visível (para alguns, claro).

12/11/09

O Mar

I

El mar. La mar. El mar. ¡Sólo la mar!
¿Por qué me trajiste, padre, a la ciudad?
¿Por qué me desenterraste del mar?
En sueños, la marejada me tira del corazón. Se lo quisiera llevar.
Padre, ¿por qué me trajiste acá?

II

Gimiendo por ver el mar,
un marinerito en tierra
iza al aire este lamento:
¡Ay mi blusa marinera!
Siempre me la inflaba el viento
al divisar la escollera.

III

Pirata de mar y cielo,
si no fui ya, lo seré.
Si no robé la aurora de los mares,
si no la robé,
ya la robaré.
Pirata de cielo y mar,
sobre un cazatorpederos,
con seis fuertes marineros,
alternos, de tres en tres.
Si no robé la aurora de los cielos,
si no la robé,
ya la robaré.
* Rafael Alberti, poeta espanhol, o último da Geração de 27, à qual também pertenceu Garcia Lorca, foi um amante das palavras e do mar.

Tavez o mar seja um lamento,
um chão de lágrimas
derramadas por poetas...

10/11/09

A culpa não é deles


... é de quem inflige maus-tratos a todo e qualquer ser, incapaz de se defender.