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06/03/10

Ao Partido

Um poema de José Salsorte:

Pelos homens humilhados
oprimidos e explorados
nos quatro cantos do mundo
pela bandeira insubmissa
cor de um sagrado castigo
pelos que jazem no fundo
dos abismos da justiça
mas tombam de rosto erguido
existes tu, meu Partido!


Pelos mártires duma ordem
extintos nos sangues que escorrem
dos quatro cornos da guerra
e por todos quanto gemem
a um deus ensurdecido
para os sem lar e sem terra
pelas crianças que tremem
de fome e frio consentido
existes tu, meu Partido!


Pelas mulheres que se enfeitam
das mágoas com quem se deitam
nos quatro quartos de amantes
pelas mães que geram filhos
sem vislumbres de certezas
contra as causas repugnantes
que vomitam dos gatilhos
suas vinganças sem sentidos
existes tu, meu Partido!


Pelos que o mar hajam visto
em torturas anticristo
pelo Amor amplitude
das uniões operárias
pelo punho prometido
à Paz e à Juventude
Pelas Reformas Agrárias
de outro povo conseguido
existes tu, meu Partido!


Pela Revolução que os puna
pelo Hino da Comuna
pelo progresso da História
pela Pátria Universal
pelo homem pretendido
pelo dia da vitória
pela Internacional
pelo pão retribuído
existes tu, meu Partido


existes tu
meu Partido!


Sto. António Caparica, Maio 1964

04/11/09

About U.S.A. - Pobre América


Um poema de José Salsorte, II parte:


Pobre américa
united states off
pátria dos imperdoáveis "trusts" multinacionais
ventre mórbido da escravidão legalizada
berço da ku klux klan no tennessee congeminada
terra prometida à "cosa nostra", ao monroeismo, às reservas índias
reino que embalou os ultra-nacionalismos
e manchada por sinatra, macarthur, enola gay, my lai

três gerações assassinas
- a chacina dos autóctones
- a aposta coreana
- a lição no vietnam

pobre américa
united states off
meretriz do capitalismo desde o haiti até à tailândia
frustração demonstrada sob sacco e vanzetti
coito da bomba nuclear
mãe desalmada dessas enormidades cometidas
em hiroshima, nagasaki e little bighorn
infâmia personalizada por mccarthy, goldwater, marshall
hipocrisia de truman e também nixon

pobre américa
united states off
que escondes ao respeito pelo mundo
os ghettos de harlem e os livros de mccoy
as nacionalidades de stern, kazan ou nabukov
as arqui-conjuras dos senadores congressistas
os golpes de estado pinochetescos
e as dextras intenções dos jornais sem página esquerda

pobre américa
united states off
fosso da acumulada segregação racial
sintético slogan do self-made-man
esperma ejaculado na guerra e na miséria
com que persistes infestar o planeta

pobre américa

Sto. António Caparica, Outubro 1972
Um poema fortíssimo e "cortante". Na verdade é um dos lados de um grande poema que resume a América, sob um olhar justíssimo e certeiro.

03/11/09

Sol do Mendigo


Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira...

Pela manhã acorda tonto de luz
vai ao povoado e grita:
- Quem me roubou o sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios rosnam:
- Que grande bebedeira!

E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o chão
dorme, dorme....

Manuel da Fonseca

Há muito que não lia nada de Manuel da Fonseca, desde a "Seara de vento", a "Aldeia nova" ou a "Rosa dos ventos". Saudades da família Palma e do conflito com as forças oligárquicas da sua aldeia, e do Mestre Finezas e da Maria Altinha... textos lindíssimos repletos de investidas sociais e políticas e , claro, de um humanismo sensibilizador.

Hoje um amigo enviou-me este poema por e-mail e não resisti a postá-lo aqui. Era um dos poemas favoritos do seu pai, José Salsorte, também ele, um poeta de muitas lutas.