08/04/10

Dona Abastança


Inspirada pela poesia do Cravo de Abril, hoje escolhi Manuel da Fonseca, também ele poeta do Novo Cancioneiro, para "recitar" um dos seus poemas:

«A caridade é amor»
Proclama dona Abastança
Esposa do comendador
Senhor da alta finança.

Família necessitada
A boa senhora acode
Pouco a uns a outros nada
«Dar a todos não se pode.»

Já se deixa ver
Que não pode ser
Quem
O que tem
Dá a pedir vem.

O bem da bolsa lhes sai
E sai caro fazer o bem
Ela dá ele subtrai
Fazem como lhes convém
Ela aos pobres dá uns cobres
Ele incansável lá vai
Com o que tira a quem não tem
Fazendo mais e mais pobres.

Já se deixa ver
Que não pode ser
Dar
Sem ter
E ter sem tirar.

Todo o que milhões furtou
Sempre ao bem-fazer foi dado
Pouco custa a quem roubou
Dar pouco a quem foi roubado.

Oh engano sempre novo
De tão estranha caridade
Feita com dinheiro do povo
Ao povo desta cidade.

in "Poemas para Adriano"

3 comentários:

Fernando Samuel disse...

O GRANDE MANEL!

Um beijo.

Mar Arável disse...

O meu

nosso

querido Manuel da Fonseca

smvasconcelos disse...

Fernando Samuel: a poesia do teu blogue levou-me a ele.:) beijo

Mar Arável: Nosso:) Sabe bem recordá-lo.. bjs