24/02/10

RECONSTRUÇÃO



Hoje, finalmente, cheguei ao Funchal. Nem descrevo já os dias que me levaram o sono e abalaram toda a minha estrutura, na medida em que tive a minha mãe retida e isolada até ontem entre escombros e derrocadas, e embora acolhida por uma vizinha, a falta de água e luz e a escassez cada vez maior de alimentos, além da eminência de novos aluimentos na encosta, eram, para mim, motivo de uma preocupação doentia.
Não deixo de me rir, agora, pelo facto da minha mãe, com quase 70 anos ter galgado os destroços e o entulho trazido pela água no seu curso desde o cume da montanha, num acto desaconselhado e irresponsável, e assim libertar-se da opressão do medo que o perigo, ainda vigente, lhe causava. Com este acto "tresloucado", ao início da noite, libertou-se, e paradoxalmente, apesar de todo o risco que correu, também me aliviou a apreensão que me tem minado nos últimos dias.
De outros relatos já não falo, dos dramas que a sua ânsia, em esconjurar todo o terror, transbordava, por vezes com lágrimas, que me atingiam com a força de um dilúvio... mas o alívio do reencontro e do abraço que se seguiu, muniu-me de uma outra força que me levou, apetrechada de galochas e roupa velha, até ao "meu" Funchal. Ande por onde andar, parta para onde for, é este o lugar que me fará sempre!, regressar...
Não ia preparada para velar as ruínas da cidade, imbuí-me de um objectivo preciso e, evitando as zonas que me impressionariam terrivelmente até às lágrimas, fui de encontro ao "meu" Teatro, um dos quintais da minha infância... O movimento, na cidade, era imenso. Militares, polícias, bombeiros e cidadãos comuns, acautelados com pás, vassouras, rodos, todos fortificados na determinação de devolver à cidade o seu carácter. Diziam-me, alguns, que mal tinham dormido (e comido) mas não paravam, inflamados e resolutos em reerguer a cidade. E a verdade é que o Funchal parece restabelecer-se, não fossem os resquícios de lama que a tinge, ainda, de castanho, e não imaginaria toda a figuração dantesca que os noticiários transmitiram.
São tantos os voluntários para limpar a cidade e os seus edifícios que quando cheguei ao Teatro não havia espaço para a ajuda que lhes propus. Agradeceram-me e pediram mesmo para me ir embora, pois "muita gente dificulta as operações". Tinham razão...
Ainda teimosa fui ficando e vendo a remoção de lama por baixo do palco e da plateia. Tinha a altura, disse-me quem lá esteve no fim de semana, de mais de um metro. Outros espaços também foram danificados, inclusive onde se acolhia um manancial de livros e relíquias, diziam-me, de Baltazar Dias. Perdas irreparáveis...
A desolação está inscrita em cada um dos nossos rostos e ao cumprimento antigo do "Está tudo bem contigo ?" acresceu a preocupação imediata e tão franca " E com os teus?".
A tristeza alojou-se em nós, mas como me disse a minha amiga açoreana: "Nós, os ilhéus, sabemos reerguer-nos!"
A reconstrução começa nessa exaltação.

4 comentários:

Armando Sena disse...

Força Sílvia. Depois da tempestade vem a Bonança.

smvasconcelos disse...

Armando: Aqui n é o que dizem. Falam em mais tempestade na sexta e sábado. Olha, aí também. beijos,

Fernando Samuel disse...

Belo e comovente texto.

Um beijo.

smvasconcelos disse...

Fernando Samuel: um beijo e um obrigada pelas palavras amigas, aqui e ´"aí" (no teu blogue).
beijo