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15/05/10

Silêncio


Um grande poeta, um dos "últimos românticos", como alguém o nominou. Da sua poesia, qual rochedo de basalto, que lhe atormentou a infância, vagueiam filões de palavras, eixos brutos de emoções, contundentes, e comoventes...

Uma noite,
quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no
teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua
voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.

Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.

José Agostinho Baptista
http://www.jabaptista.com/

02/02/10

Agonia


Talvez o caos,
o quarto abandonado, o fardo da agonia,
talvez o copo estilhaçado entre dentes,
a pluma que escreve em estranha língua de
cegueira e pavor,
talvez tudo isso seja digno de ti ou desta
mágoa
que faz aqui o seu abrigo e me acompanha
derradeiramente
pelos dias que virão como um animal
ferido,
a águia, o antílope, a noite,
a noite que já não contém o desejo, o
alento,
nada que possa ser dito e feito,
a noite das minhas mãos frias, agarradas
à garganta,
aos seus gritos que se voltam para dentro,
para as fogueiras sangrentas do amor.
José Agostinho Baptista

20/01/10

Poesia


"Se às vezes, se em certos casos, a poesia imita a vida e a vida imita a poesia, então talvez cada verso seja uma linha da cabeça, uma linha do coração, uma linha da vida. E então, sonâmbula e feroz, a mão que escreve talvez não faça mais do que construir, palavra sobre palavra, a casa de um homem, a sua história. E a sua voz obscura passará sobre a terra, sobre os anos, completando a obra."
José Agostinho Baptista

31/12/09

2010

BOM ANO A TODOS!

E na sequência do lugar da foto, remeto-me para um poema de José Agostinho Baptista, um poeta maior dos nossos dias:

Permanência

Prolongas, à volta de uma ilha, as nefastas raízes da própria dor.
Um veleiro passa ao largo da cidade, mas permaneces
frente para a cal.
Há uma lenda sem fim sobre as tuas mágoas.
Quem acode à densa névoa, ama-te de tão longe.
Um marinheiro esquece-te, embriagadamente.
Os girassóis voltam-se para o sul.

18/10/09

Funchal


amo o outono nesta cidade
as pequenas casas de raras cores
os campos de vinhas e cana-de-açúcar os pomares entre maio e
agosto.

Dizes:

Eis a tua cidade
a de zarco e colombo
as ruas estreitas tão inclinadas como o sol dos invernos profundos
os carros de cestos os caminhantes da encumeada.

eis-te no centro de tudo e os navios parados.

amo o outono nesta cidade com todas as viagens sem chegada.
na véspera já amara as verdes montanhas de leste
as chuvas abundantes
machico entre os seios de ana d`arfert.

depois voltei para sul e amei-te enquanto cantavas.
século antes navegadores de portugal deram-te um nome e
era funchal.
depois queimaram as árvores e o mais alto incêndio era uma ilha.
escravos errantes pararam o sol e à volta serenamente e sem paixão
espalharam o verde o azul.

nunca cantaram a alegria.

hoje
solitários e ébrios trabalham a pedra a beleza e o turismo

tu
envolta nas lendas e no sonho surgiste devagar e devagar
deste-me os mais belos frutos e os mais estranhos
as pitangas os araçás os maracujás e as romãs muito depois
da primavera.

eras mulher e quis guardar-te para sempre no coração de uma
cidade surpreendida.
foi então que vi a morte aproximar-se vinda do horizonte e
cobrir o pôr do sol das tuas tardes
vi morrer a água a luz a leve sombra de palidez da tua fronte
vi as aves marítimas seguirem para longe em voo raso
e pela última vez
definitivamente só

eu amei o outono nesta cidade.

José Agostinho Baptista in "Deste lado onde"


... é a cidade que se impõe em cada voo, que resgata todos os que partem, sejam os poetas que a entoam em versos, sejam os sonhadores que almejam dobrar o horizonte...
E os regressos, esses, são cercos ladeados de mar.

15/09/09

Regresso


Há muito que parti.
Abandonei as searas onde nunca vi os
desígnios de deus.
Abandonei a fé.
Caminhei sem destino,
procurei a árvore secreta dos irmãos,
e,com saudade e desvario, abandonei as casas.


Escondi-me.
escondi o último verso numa noite sem fim.
E hoje escrevo para ti que às vezes me escreves,
do outro lado das terras.
Conhecerei um dia as falésias onde o garajau paira,
quando chegar, pela madrugada,
às portas do teu sonho?


De pé, sobre o promontório,
olhas para longe, para os meus barcos que
naufragaram.


José Agostinho Baptista




Há-de haver sempre um regresso, em cada vez que nascer, de ti, outra palavra...


13/09/09

José Agostinho Baptista


Conheci-o há uns anos, primeiro pelos livros, depois pessoalmente. Identifiquei-me de imediato com a sua poesia. Uma poesia que transcrevia a ilha de um modo tão romantizado, à luz da distância da memória e dos seus afectos. Acho-o um poeta único no panorama poético actual, um destilador de palavras, um derradeiro romântico. As palavras, por ele, assumem-se dolorosas, e camufladas de uma beleza e ternura desconcertantes. Houve alguém que definiu bem a sua poesia como uma beleza que magoa, ou uma dor que comove.


E é assim que se reveste a poesia de José Agostinho Baptista, palavras doces e ternas que denunciam dores irreparáveis. Uma elegia , triste e amarga, que descreve os quintais recônditos da sua bondade , onde o homem e o poeta se confundem. E se fundem.


BASALTO

Dizias que em tudo lias o meu nome mas eu
só conheço a melancolia que habita o outro
lado das palavras.

Promete-me que não foges, disseste depois, à
boca de um túnel,
na cidade que ruía.

Pensa agora, ao acenderes uma candeia no alpendre onde te
sentas ao lado dos cães, na ilha de deus, pensa que já estou aí,
que trago no meu rosto tardio duas rosas de
basalto,
que sou o anjo triste,
que regressei para sempre do continente das
trevas.

José Agostinho Baptista

www.jabaptista.com

Meu amigo, nem anjos nem poetas se podem arrediar das "rosas de basalto". Nem dos túneis de medo que se escondem na cidade das tuas trevas...