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25/02/10

Em Louvor do Funchal

Um dia, que esperamos não muito distante, a imagem desta baía em ruínas, soterrada hoje em lama e pranto, há-de dar lugar, de novo, à paisagem verdadeira. Passaremos deste inverno intransigente e funesto à clemência de uma estação que devolva ao Funchal a sua luz.
As buganvílias voltarão a estender placidamente sobre as ribeiras os seus braços brancos, rosa, cor-de-vinho; a árvore de fogo do Largo do Colégio levantará mais alto o seu deslumbre; os Jacarandás repetirão o assombro colorido; as Tipuanas desdobrarão, nos inícios de Junho, um incrível tapete amarelo frente a São Lourenço ou na subida de Santa Luzia.
Esperamos que, num tempo não distante, se possa reconhecer, de novo, a limpidez do traçado atlântico do centro, as ruas confusamente populares, o arabesco do mercado, o mesmo desenho de cheiros, a mesma mescla de sonoridades, o brando silêncio que nas praças tem o seu quê de familiaridade tímida, quase cerimoniosa.
Encravado na forma de uma concha há cinco séculos, burgo marítimo de referência, com construção fantasiosa, o Funchal foi a primeira cidade europeia nascida fora da Europa. O resultado é um património humano e urbanístico únicos. Evoca, é claro, o modelo de algumas cidades continentais, mas já é outra coisa, como acontece aos territórios de fronteira. É uma cidade reservada e extravagante, cosmopolita e primitiva, enérgica e indolente. Tanto como outras, mas diferente, de uma maneira que é só sua. Por exemplo, em certas horas vazias, as inúmeras varandas terrestres espalhadas pelas encostas parecem colocadas num imenso navio como os que muitas vezes ali aportam, e sente-se (isto é real) que toda a cidade flutua.
O Funchal é, ainda que isso seja escassamente recordado, uma cidade literária, como Trieste ou Marraqueche: ali não apenas nasceram Edmundo Bettencourt, Cabral do Nascimento, Herberto Helder ou Ana Teresa Pereira, nasceram os seus universos.
Conta-se que o poeta António Nobre gravou a canivete numa árvore do Funchal: “sede de luz como que de relâmpagos”. Um dia, que esperamos não muito distante, chegará a luz.

José Tolentino Mendonça

18/10/09

Funchal


amo o outono nesta cidade
as pequenas casas de raras cores
os campos de vinhas e cana-de-açúcar os pomares entre maio e
agosto.

Dizes:

Eis a tua cidade
a de zarco e colombo
as ruas estreitas tão inclinadas como o sol dos invernos profundos
os carros de cestos os caminhantes da encumeada.

eis-te no centro de tudo e os navios parados.

amo o outono nesta cidade com todas as viagens sem chegada.
na véspera já amara as verdes montanhas de leste
as chuvas abundantes
machico entre os seios de ana d`arfert.

depois voltei para sul e amei-te enquanto cantavas.
século antes navegadores de portugal deram-te um nome e
era funchal.
depois queimaram as árvores e o mais alto incêndio era uma ilha.
escravos errantes pararam o sol e à volta serenamente e sem paixão
espalharam o verde o azul.

nunca cantaram a alegria.

hoje
solitários e ébrios trabalham a pedra a beleza e o turismo

tu
envolta nas lendas e no sonho surgiste devagar e devagar
deste-me os mais belos frutos e os mais estranhos
as pitangas os araçás os maracujás e as romãs muito depois
da primavera.

eras mulher e quis guardar-te para sempre no coração de uma
cidade surpreendida.
foi então que vi a morte aproximar-se vinda do horizonte e
cobrir o pôr do sol das tuas tardes
vi morrer a água a luz a leve sombra de palidez da tua fronte
vi as aves marítimas seguirem para longe em voo raso
e pela última vez
definitivamente só

eu amei o outono nesta cidade.

José Agostinho Baptista in "Deste lado onde"


... é a cidade que se impõe em cada voo, que resgata todos os que partem, sejam os poetas que a entoam em versos, sejam os sonhadores que almejam dobrar o horizonte...
E os regressos, esses, são cercos ladeados de mar.