27/09/09

Bertold Brecht


Porque hoje é dia de escolhermos o futuro, individual e colectivo (colectivo sobretudo!) invoco Bertold Brecht, cujo discurso poético de intervenção social e política perdura até hoje. Mais um flagrante da consciencialização, intervenção e afirmação política pela arte, que impulsionou e fundamentou muitas das minhas opções ao longo da vida. E é de um brilhantismo incontestável!
Alguns extractos dos seus textos e poemas:

1) Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.

2)Não há pior analfabeto que o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha de o ser e,
de peito feito, diz que detesta a política.
Não sabe, o imbecil, que da sua ignorância política
é que nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, desonesto,
o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.

3)Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu?
Em que casas da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde foram os seus pedreiros?
A grande Roma está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu?
Sobre quem triunfaram os Césares?
(...)
Bertold Brecht

26/09/09

Arca de Noé - Fim.


Seguiu a gata enquanto pôde. Dissipara-se entre os montes, aterrada de tristeza. Corria aprisionada pelo medo. O medo da sentença que se inflige na verdade...


josé arfava de cansaço, mas insistia. ensinara-lhe, um dia, que o mar era um lago onde fluíam as lágrimas dos homens.... Subiria até ao lume do monte, onde serena, se escoava uma lagoa, em fios prateados fulminados pelo sol.


Avistou uma garça, que fugia apressada no fulgor do céu:
- Viste uma gata, pequena e fulgente, devastada por enganos no releixo da verdade?
- Vi-a relampejar de medo na berma de um lago... Eu levo-te lá, mas não demoro. Perco tempo... tenho a pressa de quem parte.
Deixou-se enlevar com a garça, revolvido em vertigens, arrebatado de vozes insaciáveis do céu, ávido de afectos no clarão do reencontro.

Descobriu-a, desolada, como um vulto fulgurante, debruçada na margem da lagoa, recortada na montanha. Atirava repetidamente as folhas das árvores para a água, e deixava-as ao acaso, para deleite do vento. As folhas deslizavam silenciosas, radiantes na viagem, inquietas navegantes no pequeno chão de água.
- São os navios que resplandecem ao dobrar do horizonte.... - disse a gata , entre lágrimas, que incendiaram o coração de josé. - E agora, dizes-me por fim o que é o mar, josé?
- O mar é um poema... - hesitou o cão, comovido.
- Não mintas, josé... o mar não cabe num poema!


O sol caía de cansaço. As árvores recolhiam-se na balbúrdia da noite. Incansável, o céu aguardava pela lua. O lago escurecia no recato das sombras. As estrelas insurgiam do silêncio dos pássaros.
E no fundo do mar, que carrego em segredo, vi dois seres aninhados pelo mesmo destino.
- Cheguei tarde? - perguntou o poeta, metade gato, metade cão.
- Não. Nunca é tarde para chegar!... a uma vida.

fim.

24/09/09

Arca de Noé - Parte II


Era uma gata pequena e soturna. Tinha nos olhos o baço de um verde que não pude entender. Sobrevivia de fábulas, cismou numa ilha de lendas do mar, solitária premente nos enganos da vida. Esquivou-se de afectos, e desfiou-se nos dias, em desalento, narrando estórias para viver.

Conheceu-a ao acaso numa ponte, filigrana de encontros e despedidas, quando ao longe lhe acenava um adeus daquele que vivia dentro de si. O cão tinha um Poeta. Um transeunte da memória que insistia em não partir. De vez em quando encontravam-se sobre os escombros de um passado que os uniu. Ficavam em silêncio, e afagavam-se em saudade, nas promessas de um futuro em que nenhum acreditava. Deixava-o partir, para o poder esperar....e sonhar.

A seu lado, a gata perguntava-lhe:
- Porque partiu o teu Poeta?
- Partiu, talvez, para poder chegar...
- Aonde? - Interrompia-o no pulsar da indignação
- Ao fim do seu destino...
- Quem é o destino? - Indagava-o perplexa.
- É um archeiro, que se inflecte nos mistérios da vida.

A gata não insistia. Tomara-se pelo ensejo de ver navios, e logo se desprendia de qualquer mistério, que a fizesse desviar do mar.
Era sempre a primeira a acordar, e naquele dia antecipou-se na alvorada. Corria desvairada pela enseada, espairecia nos segredos das árvores, espantava o silêncio dos pássaros, arreliava as mariposas, assustava ratinhos perdidos na encosta, ensarilhava-se com os coelhos que a desafiavam nas tocas... e ria-se como nunca, divertida, aloucada de visões de uma planície imensurável de água, tingida de sons e de brilhos, onde se embebiam os navios que sonhava.
José também ria, incapaz de a repreender e reprimir-lhe a traquinice.
A gata soltava miados de euforia, cantorias de aleluia nos voos da alvorada. E vivamente mordiscava josé para o acordar. E josé fingia-se preguiçoso, para perdurar aquele afago...

- josé , temos de partir para o mar! - gritava ela jovial. E foi quando josé sentiu a convulsão da verdade que adiava. O mar!...
- Perdi-me do mar há tanto tempo... já não sei o caminho para lá chegar... - confessou-lhe, por fim.

Ah, as verdades.... assassinas impiedosas que se debatem nos estreitos do norte, auspícios de morte, no coração de uma vida que se contorce de sonhos....


(Continua...)

22/09/09

Arca de Noé - Parte I


Um conto, um tributo a dois seres especiais, escrito há uns anos :))


Distraí-me um dia enquanto vigilava o horizonte, sempre velado em segredos que não se desvelavam, no corrupio estonteante dos grandes navios que o cortavam.

Nas encostas do meu refúgio, que se debruçavam no mar, vi dois seres que se aninharam em mistérios de vida e ao abandono do que ditaram os homens. Brilhavam na encosta íngreme de afectos, e reluziam na cumplicidade de quem derrubou uma fronteira. Ele era um cão, envelhecido pelo destino, seteiro trocista, que na última jornada se lhe infligira aquele encontro.

Enamorei-me daquele ser, e abandonei as viagens que desterravam o meu olhar, em proas imaginadas dos meus navios de dor.

Vestia-se de uma pele fogueada pelo sol sobranceiro, que lhe adocicava o olhar. Era um cão robusto, mas cansado, cativo nos delírios da ternura que o crivaram à nascença. Dos seus olhos, espreitei-lhe a alma. Eram da cor da terra que se sonha em demência, da cor da ilha que se esqueceu, um dia, em abismos de saudade. Li um suspiro no seu olhar, mas não entendi o vale que se sulcou pelo peso de tanta dor.

Senti-lhe a solidão, companheira de um mar à deriva, que lhe foi fiel. Acorrentou-o a amargura, que não se desfazia ao abandono da memória. E o medo apossou-o de uma história que se escreveu na tristeza do olhar.

Vivera sempre na rua, ou como se fosse. Só não vive ao abandono, quem regressa ao fim do dia por um caminho que lhe serve de morada, ao encontro de um afecto que se repete, em cada dia que se sonha.

Tivera poucos amigos, e os que que ficavam um dia partiam sem se despedir. E ali ficava, acorrentado pela mágoa de não os poder seguir. E os seus dias faziam-se à espera de um amanhã, que tardava em afluir no horizonte.

Quando o conheci não estava só. A seu lado, debruçada no calor da ternura que ainda aprisionava no corpo, estava ela, uma gata esquiva e matreira, mímica graciosa na arte de encantar.

Ouvi-a ronronar em segredo, ao ouvido do cão, que se chamava josé:
- josé! - chamou-o. Ele olhou-a de soslaio, intrigado com aquela voz meiga e enternecedora, que afinal escondia um só propósito:
- É amanhã que me levas a ver o mar? - Ele riu-se do seu olhar que se transfigurara. Ao invés do olhar astuto e felino, transbordou-lhe dos olhos o brilho da ternura, que o cão sabia ser condicionado, pela sua resposta.

Não a poderia levar ao mar, estava cansado de o sonhar, e há muito que o perdera na lonjura dos montes, no tempo que lhe desfez o faro em maresia.
Mas era incapaz de lho dizer. O seu olhar demudado em incandescência de afecto, era o resquício de mar que o ancorava no mundo, o último porto que o fazia sonhar. E mentiu-lhe:
- Sim... amanhã levo-te a sonhar nas fragas do mar...
- E a velejar um navio? - Continuava risonha e sonhadora , a gata, que cativara o coração do cão.
Ele sorriu-lhe, mas emudeceu. recostou-se ainda mais no aconchego do seu corpo, e deixou-a ronronar em logros de utopia, que a coroavam de princesa na ilusão do seu mar....

(continua,...)

21/09/09

Viagem




Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
o mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).


Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga


Um poeta gigante, uma torga de onde parti há uns anos, no rasto do mar. Para trás ficaram os penedos do meu temor, a agrura dos meus anos , a saudade do reino que o vate eternizou... E quantas vezes, no delírio dos seus poemas, as lágrimas desaguavam no pequeno corgo que se esgueirava na cidade onde um dia cheguei, com a ânsia fremente de partir...

E as viagens repetem-se, na teimosia, vigente no delírio, dos que (ainda) ousam sonhar.

19/09/09

Mensagem fundamental

Palavras fundamentais

Faz com que a tua vida seja
sino que repique
ou sulco onde floresça e frutifique
a árvore luminosa da ideia.
Alça a tua voz sobre a voz sem nome
de todos os demais e faz com que ao lado
do poeta se veja o homem.

Enche o teu espírito de lume;
procura as eminências do cume
e se, o esteio nodoso do teu báculo
encontrar algum obstáculo ao teu intento,
sacode a asa do atrevimento
perante o atrevimento do obstáculo.

Nicolás Guillén

E, assim, talvez a obra da nossa vida se possa cumprir...

17/09/09

Nicolás Guillén


Dois excertos de poemas de Nicolás Guillén, cuja poesia popular afro-antilhana se reveste, sobretudo,de ideais. E de luta. Um dos poemas é ilustrativo do carácter político-social da sua poesia. O segundo , extracto de um longo e belíssimo poema , onde afirma o seu protesto racial, pelo qual se debateu no curso da sua vida e obra, que perdura até hoje por "ser obra de todos".


Burgueses

"Não me dão pena os burgueses
vencidos. E quando penso que vão a dar-me pena,
aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.
Penso em meus longos dias sem sapatos nem rosas.
Penso em meus longos dias sem abrigos nem nuvens.
Penso em meus longos dias sem camisas nem sonhos.
Penso em meus longos dias com minha pele proibida.
Penso em meus longos dias."
(...)


Elegia a Emmet Till *

(...)"ora , oh Mississípi,
oh velho rio irmão dos negros!,
agora um menino frágil,
pequena flor das tuas margens,
ainda na raíz das tuas árvores,
não pedra do teu leito,
não caimão das tuas águas:
um menino apenas,
um menino morto, assassinado e só,
negro."
(...)
* Emmet Till foi um menino barbaramente assassinado às mãos de dois brancos na América racista dos anos 50, no Mississipi, por ter dito um piropo a uma mulher branca.