31/12/11

E é com este poema, lido de fresco, que me despeço de 2011, certa que nos encontraremos em breve. Um bom ano de 2012 para todos, com força, muita força para debelar as "pedras" que aí vêm.


ameixeira

Há no pátio uma ameixeira
C'uma grade de madeira
P'ra a resguardar de quem passa
Mas - não tem nenhuma graça.

Não é capaz de crescer.
Crescer sempre dá prazer.
Mas não falemos em tal
Falta-lhe o sol, afinal.

E ninguém crê na ameixeira
Que nunca deu uma ameixa.
Que é ameixeira, se deixa
Ver na folha e na madeira.


Bertolt Brecht

13/10/11

As eleições na Madeira

De longe, fiz por acompanhar, pela comunicação social, o máximo do curso eleitoral de domingo. Ao fim de algumas horas , consolidados os resultados, senti-me combalida pela(s) surpresa (s) imprevisíveis de tal escrutínio. Nestes dias, além de alguma instrospecção - sim, há que pensar e depreender acerca do mundo que nos cerca, pois o anlfabetismo político (oh Brecht!) pode perfeitamente rematar os acontecimentos de domingo - tenho abordado e até debatido o assunto com alguns amigos, de várias facções partidárias, sejam do continente sejam da Madeira. A incompreensão é o denominador comum das nossas conclusões , o que nos frustra em matéria interpretativa.

Concluir acerca da transferência de votos do PSD para o CDS é fácil, dadas as circunstâncias, seja por insatisfação do regime (vou chamar-lhe assim) seja por estrangulamento democrático ou mesmo por temor do que se avizinha em matéria financeira. A Madeira afirmou-se, é inequívoco, como uma região de direita. Até aqui, por mais que a minha linha política não se identifique com tal cenário e me assista alguma incredulidade pelo apoio às políticas que correm, eu só tenho que respeitar (obviamente) e acatar a decisão do povo.

Discorrer sobre a descida (mais que) significativa do PS , e apesar da desilusão pelo logro da esperança de se afirmar como uma força de oposição de esquerda necessária neste panorama, também não é difícil (mesmo que superficialmente)... do que entendi ( e mesmo no meu hemisfério privado) o líder não espoletou empatia no eleitorado e a mensagem sebastianista (ou entendida como tal) não encontrou respaldo, inclusive, em pessoas que desde há muito elegiam o PS como a sua afirmação de protesto ao jardinismo. Para onde foram estes votos? Sou levada a concluir que para a (triste e envergonhada) elevada abstenção eleitoral (o PSD também desaguou nesta corrente de privação do direito cívico-político...). Mas!... também para o CDS. Pasmos? Pois... admitindo não ter grande expressão percentual, conto-vos que ao almoçar com duas amigas de sempre ( aquelas que são irmãs e de afectos viscerais) e ao abordarmos as eleições que viriam, admitiram que tendo votado sempre PS, desta vez estavam indecisas e o mais provável era que entregassem a sua confiança (?) , a sua esperança, ao CDS. Indignada, insisti: "Porquê?". A resposta: "Porque não me identifico com o candidato do PS, porque votar em Jardim jamais e nos restantes candidatos não vale a pena.". Ainda fiz campanha no almoço, confesso, tentei rebater um raciocínio que me aparentava redutor e pouco reflexivo... mas a amizade tem mistérios que nos fazem acatar a decisão do outro sem alaridos hostis capazes de nos apartar.

Eis que o ininteligível e obscuro havia de emergir no painel eleitoral: a expressão do partido do Sr. Coelho (vou denominar assim a facção que representou pois não me merece outra designação) e a eleição de um deputado do PND (??)- eleição sem o "fenómeno Coelho"!!, o que é ainda amis assustador, dada a conotação fascista destes elementos!.

Quanto ao PAN e Partido da Terra... terem elegido cada um, um deputado é o reflexo não só de uma corrente "romântica" onde emerge a protecção dos animais, do planeta, etc, como a dispersão do protesto "inócuo" face ao descontentamento geral.

Ontem alguém me falava em "manobras de diversão" eleitoral... é aqui que se sustenta a eleição de três (três!!) deputados pelo partido do Coelho e um do PND. Neste processo eleitoral, o circo leporídeo (em detrimento do pão da "arena romana") surripiou votos não só ao PSD (porque este é um aspecto a ponderar face a tamanha expressão , até porque vociferaram um discurso anti-jardiinista desde o início) mas à CDU e ao BE. Assistir a uma campanha populista, onde a arte circence assente em espectáculos tristes e sem graça de exibicionismo do número de "palhaços pobres" conduziu-me a uma conclusão: estes fenómenos - no caso, o "fenómeno coelho" - não são mais do que produtos do jardinismo na semelhança do seu eco e ressonância exacebarbada.

O resultado das últimas eleições da Madeira só pode ser explicado pela máquina jardinista ( que impera desde 1978!!), ou seja, um regime que se perpetua a si mesmo, assegurando em longevidade o seu assento social e parlamentar, mas também em desvios de pretensa oposição inconsistente e inconsciente, desonesta e pouco séria.

É de relembrar que estes sistemas com carácter "autocrático" são uma engrenagem (lembram-se de Soeiro?) difícil de desconstruir. E os trinta e tantos anos de jardinismo continuará ( e por mais um tempo) a produzir este tipo de "fenómenos", ainda mais quando subtraíu consecutivamente a cultura, por exemplo, capaz de exercitar as mentes, desenvolver o pensamento, incrementar as escolhas em consciência... enfim, Cocteau diria : preteriu-se a cultura pois seria uma ameaça ao sistema. Um povo iletrado ( não tenho ousadia para dizer analfabeto) é um povo amestrado...

E, sim, não entendo a descida da CDU num contexto tão particular, de dizimação social em várias frentes, de ataques inconcebíveis aos direitos laborais conquistados, tantas vezes com a VIDA de homens e mulheres... Independementemente - creiam - de qualquer militância ou simpatia partidária, a CDU- Madeira é uma força de uma coerência e verticalidade traduzidas em trabalho e empenho como poucos... é vê-la no terreno todos os dias, persistentemente, arduamente também, a labutar pela dignidade humana! E deparar-se com o resultado eleitoral que a limitou para metade no assento parlamentar é incompreensível... mesmo! Ainda mais face à manifestação burlesca e ridícula do Coelho...

Mesmo reflectindo ao longo destes dias, admito: não entendo o escrutinío das últimas eleições da Madeira.

Aguardem-se agora os espectáculos circences da assembleia regional entre palhaços ricos e pobres... o que seria "pouco nocivo" não fosse a repercussão nefasta que terá no povo madeirense...

:((

30/09/11

1 de Outubro - O que está em causa

Ando arredada do blogue, mas não podia deixar de assinalar a importância do dia de amanhã! De seguida um artigo que sintetiza todos o motivos para amanhã sairmos à rua e vincarmos o nosso protesto:



"No próximo sábado as cidades do Porto e de Lisboa serão palco de duas grandes manifestações convocadas pela CGTP-IN contra o empobrecimento e as injustiças, pela defesa do direito ao emprego, ao salário, às pensões e à Segurança Social.

Estas são razões de sobra para sair à rua e para fazer destas acções poderosas jornadas de luta. Mas a sua importância vai muito mais para além disso. Elas terão uma importância central na determinação das condições para as duras batalhas que se vão seguir em defesa das conquistas de Abril, da democracia e do presente e futuro soberano do País.

Simultaneamente serão um importantíssimo contributo para a luta de todos aqueles que mundo fora enfrentam, cara na cara, a criminosa ofensiva do imperialismo. Serão um estímulo para aqueles que expostos à chantagem do medo e do conformismo vêem na luta dos seus iguais, onde quer que eles estejam, um acto de profunda dignidade e um impulso mais para intensificar a luta e construir futuro.

Ter a consciência de que sair à rua, dando expressão de massas à nossa indignação e ao nosso direito de viver com dignidade e decidir do nosso próprio destino, conferindo à nossa própria acção individual o carácter colectivo de um grito e de uma acção organizada, demonstrando onde está a verdadeira força que pode transformar o mundo, é, nos dias que vivemos, de vital importância para cada um de nós, para todo o nosso povo e para a Humanidade. É esta a importância real e central daquilo que se vai passar no sábado.

O sistema capitalista está mergulhado numa profundíssima crise da qual não está a conseguir sair nos marcos dos seus dogmas políticos, ideológicos e económicos. Estamos perante uma crise que na sua mais profunda essência não é aquela que aparece nos jornais – uma «mera» crise financeira e económica. Não! Estamos a viver uma situação histórica de rápido e abrupto aprofundamento da crise estrutural do sistema capitalista que escancara a sua principal contradição e que traz para a luz do dia a evidência dos seus limites históricos, a sua natureza exploradora, opressora e criminosa, assim como as contradições entre os seus principais agentes e defensores.

O que as inúmeras declarações e reuniões dos principais centros de coordenação do imperialismo – incluindo da União Europeia – realizadas na última semana demonstram é que as classes dominantes só têm uma resposta para a crise: tentaram, e vão continuar a tentar, transferir para os trabalhadores e os povos os custos da sua crise, usando para tal os estados e as instituições do imperialismo que controlam. Querem, e vão continuar a querer, que o grande capital – o seu Deus, a sua razão de existir – continue a ditar os acontecimentos. Optaram, e vão continuar a optar, por um salto qualitativo na recolonização do planeta, massacrando populações, subjugando estados e os seus povos. Decidiram, e vão continuar a decidir, calar todos os que falam verdade e não se submetem.



O mundo não está condenado à barbárie



Mas tudo isto não é um sinal de força, é de fraqueza! As declarações de Merkel e de Obama, sujas e podres de ódio contra os povos da Europa, ameaçando com o retrocesso civilizacional e apontando o caminho do colonialismo do século XXI, não são provas de coragem. São de medo e de fraqueza! E é por isso que dramatizam novamente o discurso da crise para, aterrorizando os povos com o discurso apocalíptico da economia mundial, abrir mais campo ao terror social e ao roubo organizado da mais-valia produzida, entregando-a ao capital financeiro e financiando as guerras imperialistas.

O capitalismo está ferido e a sangrar. Mas como qualquer fera ferida atacará tudo e todos para sobreviver. É então necessário, agora que a crise entra agora numa fase qualitativamente nova, desenvolver, fazer pulsar o factor subjectivo da luta. Aquele que – numa situação de profundíssima agudização da luta de classes e de acumulação de factores objectivos para o desenvolvimento da luta – pode de facto demonstrar que os limites do sistema foram ultrapassados e que a tarefa concreta e possível é a superação do capitalismo e a construção da alternativa – o Socialismo.

A realidade demonstra, como sempre demonstrou a História, que esse caminho está nas mãos e na vontade dos trabalhadores e dos povos. São eles, somos nós, os artífices e os detentores da força necessária para, etapa a etapa, luta a luta, vitória a vitória, abrir, trilhar e alargar os caminhos da alternativa. E é no fundo isto que se vai passar no sábado… Porque o mundo não está condenado à barbárie de um capitalismo em putrefacção. Que ninguém falte à chamada!"

Ângelo Alves