06/10/09

FÉRIAS !!!


Até breve!

Londres







Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro

os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora o linho
mais bordado ou em casas
como aquela onde Rimbaud
comeu e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada

os pássaros de Londres
quando termina o dia e o sol
consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite

os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos.

Mário Cesariny de Vasconcelos in "Poemas de Londres"

Lisboa


Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo.
Caravelas te levaram
Caravelas te perderam
Esta é a cidade onde chegas
Nas manhãs de tua ausência
Tão perto de mim tão longe
Tão fora de seres presente.
Esta e a cidade onde estás
Como quem não volta mais
Tão dentro de mim tão que
Nunca ninguém por ninguém
Em cada dia regressas
Em cada dia te vais.
Em cada rua me foges
Em cada rua te vejo
Tão doente da viagem
Teu rosto de sol e Tejo
Esta é a cidade onde moras
Como quem está de passagem.
Às vezes pergunto se
Às vezes pergunto quem
Esta é a cidade onde estás
Com quem nunca mais vem
Tão longe de mim tão perto
Ninguém assim por ninguém.
Manuel Alegre
Foto de Armando Sena:

04/10/09

Dia mundial do animal

Hoje, em vários pontos do país, comemora-se o dia do animal ( e do Médico Veterinário) organizando campanhas de sensibilização e adopção de animais abandonados. É de enternecer a expressão de muitos destes animais. Têm um tal olhar que perturba de tão comovente, a que não é alheia a história de abandono e o próprio stress que estes eventos implicam, por mais bem intencionados que sejam.
Pela experiência que tive em algumas destas acções, a taxa de sucesso de adopção é enorme, sobretudo graças a crianças que retêm teimosamente os pais no recinto, encantadas com aquela espontaneidade e ingenuidade de quatro patas...tão similar à delas, afinal....
Entre súplicas persistentes, apelos com lágrimas e exigências firmes, os pais lá se rendem ao convívio dos nossos amigos. E felizmente , a maioria destas histórias são felizes. Os animais encontram ou reencontram um lar que os acolhe "para sempre"...

Excepções a este final, também existem muitas, com a devolução às instituições de acolhimento e à reincidência do abandono. É incompreensível a insensibilidade, responsável por histórias miseráveis de maus-tratos aos animais, que além do abandono, incluem envenenamentos deliberados e outras torturas psicopáticas, que põem a cobro o pior do ser humano... Ainda hoje há quem afirme que os animais não sofrem como nós, que não padecem de stress como nós. Pessoas incapazes de reconhecer nestes seres um amigo. E que amigo!, soubessem eles...
Viver com um animal, trabalhar com eles e para eles, é para mim um privilégio, um orgulho imenso, o que por si só torna o meu trabalho, provavelmente, menos stressante que os demais.

E remato a parafrasear Leonardo da Vinci (1452-1519):
"Chegará o dia em que os homens conhecerão o íntimo dos animais e, neste dia, um crime contra um animal será considerado um crime contra a humanidade".

... Até porque as sociedades e os valores a elas inerentes também se traduzem no reconhecimento de que "os animais são nossos amigos".

03/10/09

Obrigada


Foi um bom espectáculo. A cada uma de vocês, as que participaram, as que não participaram; as que vieram assistir e as que não puderam vir, o meu muito, muito obrigada!

Bem-hajam!

01/10/09

O Teatro


Falar do Teatro é mergulhar num amor teimoso que não se arreda de mim há 24 anos. Tinha entrado na adolescência quando fui arrebata pela intensidade,tão racional quanto irracional, do Teatro. Foi uma entrega inquestionável, que no entanto me ensinou a questionar, e a pensar. Um tempo que me roubou tempo de estudo, mas que o devolveu em ensinamentos que ainda hoje se sustentam. Foram sacrifícios enormes, que se compensaram em afectos para a vida. Foi, ainda é, um dos grandes incitadores do meu destino... O Teatro enformou-me. E transformou-me. E estes, creiam, são efeitos milagrosos desta arte.

Há quase um ano, e após anos consecutivos a vivenciar o Teatro "só" como actriz, propuseram-me que desse aulas de Teatro numa instituição que apoia jovens mães ( e menos jovens também) carenciadas. Não hesitei sequer em aceder e muitas terão sido as razões que contribuíram para isso...

A primeira aula foi difícil. Uma das responsáveis transmitiu-me a mensagem de que se eu não quisesse continuar , compreenderia, até porque eu ingressara na instituição como voluntária.
Propus um exercício de integração e apresentação. Protestaram. Perguntei-lhes o que esperavam das aulas, responderam que estavam ali contrariadas. Que ideia tinham do teatro? Não gostavam.
E não mentiam. Entre as carências imensas que lhes ditaram muitas das agruras que a sua pouca idade já experenciou, denunciaram sempre a verdade do seu carácter. Não se imbuíram de mentiras para vingarem na vida, nem das verdades dos outros para se afirmarem.
Saí da aula consciente do meu insucesso, mas decidi que não desistiria. Porque tinha gostado delas, daquelas meninas já mulheres e já mães. Crianças ainda, com estórias escritas a dor, muita dor... e revolta.

Fiquei. E entre a minha insistência e a resistência do grupo, a minha teimosia e os seus protestos (que poderá simbolizar o Teatro a quem mendiga a sobrevivência todos os dias?!), o milagre aconteceu. Foram pequenos milagres, que se assumem gigantes, quando penso no dia-a dia destas meninas, muitas privadas de afecto, outras sem família, sem ninguém que lhes fale de valores, que lhes ensine a sonhar e a vislumbrar o futuro, o seu e o dos filhos que já carregam...

No dia 27 de Março (dia do Teatro) conseguimos participar num festival de Teatro Amador com um pequeno texto,cuja comicidade lhes arrancou inúmeras gargalhadas (inclusive em pleno palco!). Elas que, suspeitei, nem sabiam sorrir... As mais resistentes agora pediam para participar nas actividades. De uma vi despontar um grande sorriso após imensas sessões de obstinação. Ou talvez de tristeza...Outra superou a imensa timidez e até nos contou a sua história de amor. Outras voluntariam-se, agora, para ler, quando antes se envergonhavam de ainda soletrarem as palavras. Interagem positivamente umas com as outras quando antes se atropelavam em incidentes e guerrilhas que, não raras vezes, tive de mediar .... E uma outra, já mais velha, decidiu voltar a estudar numa escola profissional. A iniciativa foi sua, a escolha também. Começou este mês a estudar. Teatro!, quer ser animadora Cultural.
Sem se aperceberem, sei que todas elas, de uma forma ou de outra, foram cativadas pelo irrequieto e sedento "bichinho do teatro". Sei que o Teatro, mais uma vez, se interpôs no trilho dos que, por acaso (ou talvez não) o interceptam, e cumpriu o seu fim sublime: resgatá-los, nem que seja por momentos, do sofrimento que os mina; encorajá-los a debater-se nas dificuldades; embebê-los de afectos e pensamentos... Mas sobretudo, enformando-os. E tranformando-os!
No próximo sábado apresentaremos o segundo espectáculo. Desta vez, a leitura de poemas infantis de Sidónio Muralha, que lerão e interpretarão em público, para os seus filhos e para os filhos de todas as mães.
E corra como correr, não importa, o milagre vai acontecer!

Poema do actor


O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores(...)
Ninguém ama tão desalmadamente como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo ao pequeno talento humano(...)
O espantoso actor que tira e coloca e retira o adjectivo da coisa,
a subtileza da forma,e precipita a verdade(...)
Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus(...)
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.Como a unidade do actor.
O actor é um advérbio que ramificou de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira, e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamentedo Nome.
Nome que se murmura em si, e agita, e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.Que sangra.Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo, enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.Como o corpo do actor.
Porque o talento é transformação.O actor transforma a própria acção da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.Faz crescer o acto.O actor actifica-se(...)
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.
Em estado de graça. Em compacto estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela. Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimentode onde brota a pantomina (...)
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.O actor em estado geral de graça.

Herberto Helder

Um grande poema! Dos que mais dignificam o Teatro e o actor.