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16/01/10

CARÁCTER

ROTEIRO
Parar não paro
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se caráter custa caro
Pago o preço.
Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.
Um rio só se for claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
mas se tropeçar não paro
- Não paro nem mereço
E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- Se carácter custa caro
pago o preço
Sidónio Muralha

O poema que deu mote a este blogue. Uma mensagem de integridade que tem eco em tão raras pessoas... é que a coerência, a verticalidade, o carácter "custam caro" e "não têm avesso". E esse foi o roteiro escolhido por este homem ímpar que foi Sidónio Muralha.

23/12/09

Manual do perfeito mendigo

Gesto pedindo clemência
cansa.
Modernizem a desgraça.
Ser pedinte com eficiência
é alugar uma criança
e arremessá-la aos olhos de quem passa.

Quem fala de caridade
usa a velha ferramenta
e compromete o seu papel.
Para comover a cidade
preguiçosa e sonolenta
só a criança de aluguer.

Só a criança. De baixo custo.
É pitoresca ou inefável,
sabe chorar, sabe sorrir,
exprime o pavor, o medo, o susto,
é facilmente transportável
e faz o drama explodir.
Pagam os homens comprometidos
para não verem na sua frente
os mendigos alugados,
que falsas mães, de olhos doridos,
silenciosas, mostram à gente,
como brinquedos mutilados.

Sidónio Muralha

Imagens de crianças pedintes e manipuladas por "falsas mães" ou outros traficantes de infâncias, perpassam tantas vezes por nós. Hoje, quando fui tomar um "copo natalício" com colegas, fui assolada por várias, no estacionamento, que me estenderam as mãos num apelo material e o olhar numa invocação da infância que nunca terão... Alegaram que se não lhes desse "uma moeda" seriam sovados em casa.
Porque todos temos responsabilidade, que não se hesite em ligar para o SOS Criança quando se se deparar com uma situação que implique qualquer risco para uma : 800 20 26 51 ou 21 793 16 17 (de qualquer região do país).
De imediato entrarão em contacto com a PSP, que por sua vez se encaminhará para o local e orientará a situação para instâncias judiciais. Foi o que me informaram.

24/10/09

Com uma criança nos braços


Vem, através de tudo vem,
com lentos, lentos mas implacáveis passos
aquela mulher que tem
uma criança nos braços.
Vem, através das páginas da história
que já não conseguimos apagar
- quem pudesse fechar a memória
e deitar a chave ao mar.
Vem, através de tudo avança.
E há pessoas que ficam ofendidas
porque aquela mulher a aquela criança
deveriam ser proibidas.
Deveriam ser mas para sê-lo
os pássaros não teriam asas
e seria preciso toneladas de gelo
para apagar biliões de brasas.
E ela vem. Como se tudo desenhasse
em lentos, lentos mas implacáveis passos
- como se de Hiroxima voltasse
com uma criança nos braços.
Sidónio Muralha
Este poema, de um grande "poeta da condição humana", é para as meninas- mãe com quem trabalho no (nosso!) Grupo de Teatro do Centro da Mãe.

08/09/09

Os olhos das crianças

Dos poemas mais comoventes que li, de Sidónio Muralha:
(e por este poema também se viaja aos "capitães da areia", aos "esteiros"... e a tantos meninos "com lágrimas no rosto"que povoam a nossa realidade.)

Atrás dos muros altos com garrafas partidas
bem para trás das grades do silêncio imposto
as crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os poetas com lágrimas no rosto.

Olham os poetas as crianças das vielas
mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que lelas pedem é que gritemos por elas
as crianças sem livros sem ternura sem janelas
as crianças dos versos que são como pedradas.