23/02/11

Zeca Afonso - Vejam Bem



Hoje, em especial, é um dia para lembrar o Zeca...

21/02/11

Miguel Hernandez- Elegia / J.M. Serrat



Para o José, que perdeu um amigo. ..
:(

16/02/11

Pensar em ti

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e ...o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.


António Gedeão

14/02/11

A minha avó

Tive uma avozinha. É vaidade dizer que era a sua neta dilecta, mas não coro perante o orgulho que ainda sinto nesse facto. Era tão velhinha já quando as primeiras memórias do seu rosto despontaram em mim. Mas vigorosa, de andar apressado, sorriso rasgado e iluminado (era lindo o sorriso da minha avó, e tantas vezes confortou a solidão das minhas tardes!) e um olhar tão cândido que se escondia nuns olhos já encovados e tão pequeninos. Foi ela quem melhor me embalou a infância, sobretudo quando se sentava no chão ao meu lado a costurar vestidos para as minhas bonecas de trapos, que ela mesma fazia. Por vezes cantava-me, numa voz rouca e sem vibração, e no entanto alvoroçava ao rubro o enorme afecto que eu lhe tinha. Vertia tanta ternura, a minha avó !...
Gostava de me ensinar e , por ser ela, empenhava tanta atenção ao que me dizia que , ainda hoje, tenho o travo do arroz da minha avó e o alinhavo certo na roda das calças.
Tantas vezes rebuscava o seu passado de pobreza e tristeza, da lavoura que os seus pais lhe impuseram desde cedo, do casamento tardio que lhe fora imposto, dos filhos que lhe morriam à mão de um destino maldito, da viuvez precoce que a desamparou, do trabalho de toda uma vida que penhorou para fitar o futuro dos filhos. E se por vezes lhe pressentia nostalgia, ela dissipava-a logo com aquele sorriso tão franco e resoluto quando, ansiosa, lhe perguntava: "Avó... está triste?".

Outras vezes remexia no tempo em que cedo se lançava pelas serras rugosas da ilha para ordenhar a vaca e as cabras, pela manhã, e eu desvairava de alegria quando os personagens das suas histórias eram os animais: " Conte mais , avó!" e ela, motivada e feliz, lá me engrandecia o cão que a seguia pela madrugada até aos palheiros longínquos da sua infância.

Às vezes lia-lhe poemas e ela não os entendia, mas sorria muito e no fim compensava-me com um "Sabes ler bem...", e dizia-mo tão simplesmente que ainda hoje sinto a força de tamanha ternura. Um dia quis ensinar-lhe a escrever o seu nome e lembro-me de ter insistido repetidas vezes, guiando-lhe a mão com a minha (ah, a mão tão fina e pequenina da minha avó!) e rabiscando tantas vezes no papel: " Ge-or-gi-na" . Não conseguiu autonomia para o escrever sózinha, mas um dia pediu-me o lápis de carvão e desenhou-me um arado. Queria que eu soubesse como era o instrumento com que sulcara a terra, o mesmo que também lhe lavrara a vida.


Quando parti, anos depois, desgostei-a. Fez da minha ida um lamento sem consolo, mas em cada retorno meu partilhávamos os lanches no café da cidade, noutras tardes tão luzentes que lembravam outros tempos. Num desses regressos encontrei-a acamada e o seu olhar fulminou-me pela inexistência de um qualquer resquício da expressão branda e sensível de outrora. " A avó já não tem memória, não te reconhece", diziam-me. Era um corpo sem tempo, sem vigor... Mas nesse momento, foi tanto o meu pranto pela partida daquela que tanto me amara , que a minha convulsão despertou-a do torpor por um instante tão breve, que se tornou eterno: "Estás a chorar, Sílvia?"- e sorriu-me por uma última vez, sem que eu lhe conseguisse responder, e não disse mais nada!


Não voltei a vê-la e pouco tempo depois morreu, em casa, cuidada por filhos, noras e netos.

Quando oiço estas notícias de abandono de idosos, que nos últimos dias têm preenchido o nosso painel noticioso, indigno-me com a frieza e a indiferença que acometeu a nossa sociedade. Ostracizar assim os mais velhos, degredá-los ao abandono e maus-tratos são reflexo da podridão de um sistema que ostenta tudo menos a dignidade. Curiosamente, é nos países ditos de primeiro mundo, que os velhos deixam de servir e se tornam um fardo que urge descartar. Não me deveria surpreender, afinal é o fruto do apregoado capitalismo que, entre outras coisas, enaltece o novo enquanto fonte de rendimento facilmente moldável e rentável....e, quando velhos, descartável.
Que revolta!

13/02/11

Poema

A maior das maravilhas é viver
mas não me empurrem para a vida
sem que eu queira. Não me dispam,
não me vistam, não me lavem sem
que me apeteça. E não dêem números
às almas, às coisas que são mais importantes,
não atribuam um número à esperança,
outro à minha angústia e outro à liberdade,
ou um só número para tudo o que sou
e para tudo o que sinto. Um número
tatuado na pele humana da notável
condição de ser pensante. Não afoguem
a água. Não aqueçam o sol. A maior
das melhores maravilhas é viver
sem profissionais do empurrão. Os que esperam
lucrar alguma coisa com a queda, chegar-se
à frente no gabinete das soluções precárias.
Não quero que me convidem nem me impeçam
de viver como gosto, como quero, como espero,
ou de outra forma qualquer. Não se ponham
na minha frente, nem me empurrem.
Deixem-me caminhar como eu quiser,
se eu quiser. Deixem-me pensar como eu
quiser, se eu quiser. Deixem-me, apenas.
Não me segurem. Quero escolher.
Quero ser o que bem me apetecer!
Formidável, amável, doente, diferente
ou indiferente. Permitam-me que escolha,
que faça apenas o que me der na bolha,
que diga porra!, basta!, vão-se embora!
e deixem-me ficar. Quero permanecer
caído, traído, vencido, emparedado,
ou sacudir de vez a água das traições
e ferrar o dente na mentira, gritar se fôr
preciso. Mas fazer doer quando morder.
Não me toquem, não me abracem, não me finjam
sentimentos. Há momentos que não posso suportar.
Deixem-me ser como o mar, como o deserto:
ser perto ao longe e longe ao perto. Ou ser,
apenas ser. O que eu for capaz, afinal, o que eu
quiser, porque quero, porque posso, porque
de nada serve querer mudar-me. Não me toquem
como se eu fosse uma bola de cristal, uma
cobra, uma barata, uma coisa, um animal.
Deixem-me estar sozinho. Assim, sozinho,
tão sozinho que não precise de ninguém,
muito menos de quem se sente no direito
de empurrar. Ou impedir. Não me façam
um dos vossos, um previsível, um sensível
à rotina das esperadas pulsações. Não quero
dar, nem quero que me dêem soluções. Nem
sequer convosco conversar ou fazer parte
seja do que for. Retirem-se. Retirem-me
a vergonha de me estar a transformar
no que é pior que tudo e eu não mereço:
no número 103 420 894. Por favor,
é isso, só isso, que vos peço.

Joaquim Pessoa

10/02/11

IKEA e capitalismo

Hoje lia uma notícia que não me deveria surpreender, mas que expressa bem a fúria capitalista de magnatas, e o quanto se colam à pobreza de valores construtivos de um ideal social. Por acaso, e também por razões geográficas, nunca fui cliente dessa grande empresa que se chama IKEA - e certamente evitarei sê-lo a qualquer custo a partir de agora, a atestar a veracidade do que li.
Entre outras informações, que foram publicadas em livro por um ex alto quadro da empresa, fiquei a saber que a madeira usada (não sei se a 100%) provém ilegalmente da China ou da Rússia, ou seja, provavelmente da desflorestação abusiva desencadeada por máfias, às quais os direitos humanos são insignificantes, nomeadamente e , no caso, não é difícil imaginar o grau de exploração que deve estar na origem desta situação.Vejam lá o cinismo do grande capitalismo como opera: por um lado desfloresta criminosamente, por outro tem um fundo de donativos para a protecção ambiental.
Mas , e ainda em matéria de protecção da natureza, são capazes de outras atrocidades: depenam aves vivas para as almofadas e edredões, e mantêm-nas vivas durante um máximo de tempo para rentabilizarem o produto, mais que uma vez. Isto é de um horror absoluto, ao que uma empresa sem escrúpulos chega para poder comercializar um produto a baixo custo!...
Se tivesse ficado por aqui na leitura, já seria suficientemente chocante, mas no artigo discorre-se sobre mais: as mulheres são discriminadas meramente pela sua condição de género e são impedidas de chegar a carreiras de topo! Em matéria de multinacionais e para quem já trabalhou numa, isto não é novo. Os negros também são tidos como elementos pouco confiáveis.
Ou seja, estamos perante um exemplo digno da política capitalista: exploração, ilegalidade, atentados humanos e ambientais, doações e fundações.
E sabem que mais, ainda? O dono desta empresa tem um passado nazi, e ao que foi relatado no artigo, o seu ídolo era... Hitler.