09/08/11

de Joaquim Pessoa:

Estava precisamente a dizer-te

que o meu coração tem um sorriso ao qual não

me oponho porque esse sorriso tem a forma de

um barco que desliza sobre qualquer "mar

de lágrimas". Fico satisfeito por teres perdoado

as minhas palavras. Cada uma delas quer ser melhor

que a outra. Sabes?, isto de ser poeta não é de facto

coisa que se recomende, e um verbo é como o vento.

Se alteras o tempo verbal, mudas a direcção do

vento, quero eu dizer, a direcção do pensamento. O que

canto não é o que cantei, e também decerto não será

o que cantarei um dia. Por isso, estava a dizer-te

que o meu coração sorri. E não sorri

apenas. Adora andar por aí, a assobiar

o futuro. Fazendo justiça

a quem me lê.



(Do livro a publicar, ANO COMUM

07/08/11

Estou triste e dói-me


Estou triste e dói-me
o coração tão fundo
que o grito coagula na garganta
...e não circula
mais.

Quando o punhal se crava
na grossa veia cava
e não retira
mortal a ferida sangra
e não para fora.

Agora é tanta
a dor que se não chora
que decanta
na ruga em vão do riso
um limo de soluços mineral.

Carlos Aboim Inglez

AS PESSOAS SENSÍVEIS

(surripiado ao "Cravo de Abril")


As pessoas sensíveis não são capazes
de matar galinhas
Porém são capazes
de comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
à roupa do seu corpo
aquela roupa
que depois da chuva secou no corpo
porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
a roupa
que depois do suor não foi lavada
porque não tinham outra

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
assim nos foi imposto
e não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
porque eles sabem o que fazem


28/07/11

É o sistema, estúpidos!


«A crise durará mais um ano e acabará em 2010». Quem o disse foi Dominique Strauss-Kahn, o ex-director geral do FMI, em Outubro de 2009, afirmando que os efeitos da crise económica durariam mais um ano e que se sairia da recessão no primeiro semestre de 2010. Era o tempo de, a partir do FMI, da Comissão Europeia, das conclusões do Conselho Europeu e da Casa Branca, decretar o início da «recuperação lenta e com desafios», a patranha que deu cobertura à intensificação das medidas de transferência dos efeitos da crise para os estados e para os trabalhadores e os povos

Entretanto as consequências da fuga para a frente do sistema cedo se fizeram sentir e a crise aí está, funda, sem fim à vista e com altíssimas probabilidades de novas e ainda mais violentas explosões, tal como o PCP previu. Mas isso não demove os responsáveis políticos de insistir na mentira e exactamente na mesma estratégia. A recente cimeira da Zona Euro foi mais um «brilhante» exemplo desse exercício. Barroso, Rumpoy e Sarkozy lançaram o mote da resolução dos problemas da crise das dívidas soberanas e do euro e do clima de distensão e alívio. Mas foram precisos apenas dias para que a realidade reduzisse ao ridículo as pomposas declarações, como o comprovam duas notícias veiculadas na passada terça feira.

Uma dá-nos conta do debate esquizofrénico nos EUA entre conservadores e democratas altamente demonstrativa do Estado caótico a que chegou a economia norte-americana. O presidente da maior potência capitalista do mundo veio a público proferir uma declaração a pedir consenso para aumentar o tecto da dívida soberana, ameaçando com um crash norte-americano com consequências para todo o Mundo. A outra reduz a lixo as tão mediáticas conclusões da cimeira do euro: A situação não dá sinais de estabilização, pelo contrário; a especulação acelera e avança para novos países e os juros da dívida soberana de curto prazo de países como a Espanha e a Itália disparam. E só poderia ser assim… é que o problema está no sistema, e esse não foi tocado desde 2008. Bem pelo contrário, esbraceja e defende-se com a guerra social contra os trabalhadores, os povos e a soberania das nações

27/07/11

Quando o Amor Morrer Dentro de Ti


Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.

Ruy Cinatti

16/07/11

(ai, a vida...)




Essa lesma na tua alma obriga a que os teus sentimentos

mal se movam. E não te adianta dizer que a vida é uma

merda. A vida não dá descanso a ninguém, nem mesmo

aos que vivem fingindo-se de mortos.

Ainda que tenhas medo de fazer perguntas, irás sempre

encontrar respostas. Não te escondas, não te negues e,

sobretudo, não te atrases. É o pior para quem não gosta

de correr, pois a vida não é pródiga a repetir oportunida-

des. E se elas estão na tua cabeça, empresta-as ao teu cor-

po, empresta-as a ti mesmo. Acautela os teus interesses,

simplesmente. Só as coisas simples sabem voar. Os bodes

expiatórios não.

E, por favor, não me digas que estás velho. O tempo não

existe. O que na realidade existe, é o registo do que sou-

bemos fazer com ele. Da capacidade de fazer da nossa vi-

da a melhor coisa que a vida tem. Nem mais, nem menos.

Joaquim Pessoa

11/07/11

Facundo Cabral !



"Não estás deprimido, estás distraído".
Até sempre, poeta das canções, da vida, das lutas...