04/04/11

02/04/11

CANÇÃO DE GUERRA

Um poema surripiado ao "Cravo de Abril" agora mesmo, adequa-se ao travo que tenho na alma por estes dias: Aos fracos e aos covardes não lhes darei lugar dentro dos meus poema. Covarde já eu sou. Fraco, já o sou demais, e se entre fracos for me perderei também. Quero é gente animosa que olhe de frente a Vida, que faça medo à Morte. Com esses quero ir, a ver se me convenço de que também sou forte. Quero vencer os medos... Vencer-me - que sou poço de estúpidos terrores, de feminis fraquezas. Rir-me das sombras, rir-me das velhas ondas bravas, rir-me do meu temor do que há-de acontecer. Venham comigo os fortes... Façam-me ter vergonha das minhas cobardias. E de seus actos façam (seus actos destemidos) chicotes prós meus nervos. Ganhe o meu sangue a cor das tardes das batalhas. E eu vá - rasgue as cortinas que velam o Porvir. Vá - jovem e confiado, cumprindo o meu destino de não ficar parado. Sebastião da Gama

28/03/11

Colóquio "Maus-tratos a crianças"



Foi há uns dias, no Funchal e a azáfama em que andei para a concretização deste acontecimento não me permitiu partilhá-lo além do post de divulgação sucinta pelo facebook. Passado o evento, não é menor a partilha do momento. Reuniram-se quatro rostos determinantes na luta contra os maus-tratos a crianças em Portugal num encontro, acreditem, marcante numa cidade com as particularidades, sobretudo políticas, do Funchal.
Edgar Silva, à direita na foto, travou batalhas inimagináveis ao mais comum dos comodistas (e são tantos) que pululam as sociedades. Num período (que perdura...) de cavalgadura política e religiosa houve um homem que se insurgiu, curiosamente não para mudar qualquer uma das instituições, mas para defender e proteger uns quantos (inúmeros ainda...) seres que o sistema abandonara, e assim sujeitara às maiores atrocidades e destratos.
Eram crianças! E viviam pelas ruas, sem retaguarda familiar, sem afectos que não fossem os partilhados entre os bandos de meninos que sonhavam ser homens...
Meninos que sorriam tristemente nas "mergulhanças" que eram não mais do que mergulhos atléticos e artísticos no mar para recuperar moedas que os turistas, alarvemente, lhes lançavam dos navios, sob a contemplação divertida de tanta gente cúmplice em redor. Também eu era menina quando assisti repetidamente às "mergulhanças" nos passeios domingueiros que se faziam pelo cais da cidade. Delirava com as acrobracias dos meninos, mergulhava imaginariamente com eles e congratulava-me quando exibiam o troféu, como se também meu se tratasse : uma moeda de dois escudos e meio, na maioria das vezes, para gáudio do público que aplaudia como se estivesse no circo...

Eu não sabia que aquele era o espectáculo mais triste do mundo! Que aquelas tardes da minha infância debruçadas no cais, eram tão só o reflexo de uma sociedade perversa, onde o poder era o trunfo que movia pessoas desprovidas de alma, e onde a igreja se alienava do seu papel de raiz, solidário e social, e se imiscuía na podridão da política.
Além da mendicidade e de todas as privações de cuidados e direitos que todas as crianças têm consagrados pela UNICEF, estes meninos eram sujeitos a sevícias,abusos sexuais e prostituição. Foi o Edgar, então padre, dotado de um carácter especial, de um humanismo raro e de uma força colossal quem se debateu para resgatar estas crianças da rua , criando para elas uma "Escola Aberta". Esta, era livre, desprovida de regras ou imposições capazes de repelir estas crianças que temiam a própria escola, porque a tinham como castigadora. Uma das condições que eles próprios impuseram para a sua escola era de que os "professores (que eram voluntários...) não podiam bater"... - a dor das crianças expressa em restrições que a memória do seu próprio sofrimento escudava.

Mas a escola dos meninos de rua do Funchal e Câmara de Lobos fechou e o Edgar foi preso, na altura. A força dos que ousam lutar dignamente por um mundo melhor incomoda a sujidade dos corredores políticos em promiscuidade com a igreja.

No passado dia 25 reuniram-se com o Edgar, o Pedro Namora, a Dra. Catalina Pestana e o Dr. Álvaro Carvalho, também eles combatentes pela dignidade das crianças, cuja luta é mais conhecida pelo mediatismo do Processo Casa Pia.
O encontro foi bem sucedido, segundo atestaram vários participantes, incluindo os palestrantes. Julgo ter sido das poucas cuja satisfação ficou aquém do esperado. Embora a sala estivesse repleta de gente, para mim não foi o suficiente, dado o empenho que tenho nesta causa e a importância incontestável que este tema carrega na construção de qualquer sociedade sã. Esta, é uma temática que devia mobilizar o mundo inteiro!

Dizia-me alguém em tom de explicação que, porventura, se não fosse uma iniciativa da CDU, a sala, além de estar cheia como era o caso, seria insuficiente para uma procura massiva... E confesso-vos que esta ideia me indigna: então os direitos das crianças são partidários? Desde quando é que se partidariza a consagração da dignidade da criança?!!

Mas "o caminho faz-se caminhando", não é? E as transformações sociais, sobretudo as de mentalidade, nunca se fizeram "num dia", mas sim como resultado de lutas persistentes, teimosas, árduas e nunca, nunca alquebradas!

Como as dos quatro palestrantes.

Dia 27 março: Dia Internacional do Teatro

MENSAGEM DO DIA INTERNACIONAL DO TEATRO DE 2011 por Jessica Kaahwa que, além de dramaturga e actriz, é uma defensora implacável dos direitos humanos!
(sim, foi ontem, mas só acedi à msg internacional hoje:)

"Este é o momento exacto para uma reflexão sobre o imenso potencial que o Teatro tem para mobilizar as comunidades e criar pontes entre as suas diferenças. Já, alguma vez, imaginaram que o Teatro pode ser uma ferramenta poderosa para a reconciliação e para a paz mundial? Enquanto as nações consomem enormes quantidades de dinheiro em missões de paz nas mais diversas áreas de conflitos violentos no mundo, dá-se pouca atenção ao Teatro como alternativa para a mediação e transformação de conflitos. Como podem todos os cidadãos da Terra alcançar a paz universal quando os instrumentos que se deveriam usar para tal são, aparentemente, usados para adquirir poderes externos e repressores? O Teatro, subtilmente, permeia a alma do Homem dominado pelo medo e desconfiança, alterando a imagem que têm de si mesmos e abrindo um mundo de alternativas para o indivíduo e, por consequência, para a comunidade. Ele pode dar um sentido à realidade de hoje, evitando um futuro incerto. O Teatro pode intervir de forma simples e directa na política. Ao ser incluído, o Teatro pode conter experiências capazes de transcender conceitos falsos e pré-concebidos. Além disso, o Teatro é um meio, comprovado, para defender e apresentar ideias que sustentamos colectivamente e que, por elas, teremos de lutar quando são violadas. Na previsão de um futuro de paz, deveremos começar por usar meios pacíficos na procura de nos compreendermos melhor, de nos respeitarmos e de reconhecer as contribuições de cada ser humano no processo do caminho da paz. O Teatro é uma linguagem universal, através da qual podemos usar mensagens de paz e de reconciliação.Com o envolvimento activo de todos os participantes, o Teatro pode fazer com que muitas consciências reconstruam os seus conceitos pré-estabelecidos e, desta forma, dê ao indivíduo a oportunidade de renascer para fazer escolhas baseadas no conhecimento e nas realidades redescobertas. Para que o Teatro prospere entre as outras formas de arte, deveremos dar um passo firme no futuro, incorporando-o na vida quotidiana, através da abordagem de questões prementes de conflito e de paz. Na procura da transformação social e na reforma das comunidades, o Teatro já se manifesta em zonas devastadas pela guerra, entre comunidades que sofrem com a pobreza ou com a doença crónica. Existe um número crescente de casos de sucesso onde o Teatro conseguiu mobilizar públicos para promover a conscientização no apoio às vítimas de traumas pós-guerra. Faz sentido existirem plataformas culturais, como o [ITI] Instituto Internacional de Teatro, que visam consolidar a paz e a amizade entre as nações. Conhecendo o poder que o Teatro tem é, então, uma farsa manter o silêncio em tempos como este e deixar que sejam “guardiães” da paz no nosso mundo os que empunham armas e lançam bombas. Como podem os instrumentos de alienação serem, ao mesmo tempo instrumentos de paz e reconciliação? Exorto-vos, neste Dia Mundial do Teatro, a pensar nesta perspectiva e a divulgar o Teatro, como uma ferramenta universal de diálogo, para a transformação social e para a reforma das comunidades. Enquanto as Nações Unidas gastam somas colossais em missões de paz com o uso de armas por todo o mundo, o Teatro é uma alternativa espontânea e humana, menos dispendiosa e muito mais potente. Não será a única forma de conseguir a paz, mas o Teatro, certamente, deverá ser utilizado como uma ferramenta eficaz nas missões de paz."

22/03/11

ASCO

Agora, não se chama Saddam, não é o Iraque onde, a pretexto de armas de destruição massiva que nunca existiram, já assassinaram um milhão de pessoas. Pessoas? Talvez não. Umas coisas sujas que por lá andam. Eram os tempos do facínora de bigode, o diabo que antes era um grande amigo do tio Sam e dos seus lacaios da Europa falida. Enforcaram-no, num julgamento justo e digno (!), como sempre são os do mundo "civilizado". Quem enforcará o assassino Bush, o assassino Obama, o assassino Sarkozy e a respectiva corja? Agora, o novo quintal dá pelo nome de Líbia e chama-se Kadafi o novo facínora. Talvez o seja, talvez sempre o tenha sido. Mas era amigo dos que agora o odeiam, demasiado extravagante, é certo, mas com direito a negociar e a montar tenda de luxo nas cimeiras da hipocrisia. Cinismo, asco, como ontem dizia o Comandante Chávez, na Telesur. O "Império da Loucura", segundo Chávez, é o mesmo que ao longo da história matou, chacinou, saqueou e devastou a África e a América Latina. Com a Bíblia numa mão e uma espada na outra. O "Império da Loucura" nunca dorme. Sempre que é preciso, prepara o cenário. É preciso dinamizar o mercado da guerra, testar armas, aviões, radares, bombas. Preparado o terreno, com a omnipresente CIA a mexer os cordelinhos da intriga e da sabotagem em todas as regiões do Globo, divulga a sua propaganda, encena a sua mentira. Arrebanha jornalistas sem honra, sem ética, esses que não têm uma gota de humanidade nas suas veias, esses para quem a única verdade é a que os patrões lhes ditam. O filme volta ser rodado. O espectáculo continua. O planeta inteiro é o seu pátio das traseiras. O seu reino será um planeta de cinzas, mas que importa, a culpa é da Natureza. De vitória em vitória, até à derrota universal. Há pouco tempo, no Afeganistão, as forças do "Bem", with god on their side, mataram nove crianças que num bosque apanhavam lenha. Por engano, I am sorry, disseram os assassinos do Pentágono e os seus acólitos. Para eles, para o "Império da Loucura", que interessam nove crianças ranhosas e mal vestidas? Não, não se trata de crime, não são os direitos humanos que estão em causa, sempre que o seu alvo é a soberania dos povos menores, aqueles que não não têm direito à sua religião, aos seus costumes, à sua cultura, mas têm invejáveis e cobiçadas matérias-primas. Quando a ganância é o estandarte supremo, não há morte, nada disso: são danos colaterais. Azares. E depois posam, todos sorridentes, para a fotografia e para as televisões que controlam. Quase todas. É como se fossem para uma grande festa. De mãos dadas, de peito inchado, manequins do terror, vestidos de Armani e companhia. Para a sua orgia de metralha e bombas. Outrora, era ouro, prata, pedras preciosas, tudo o que servisse para se tornarem grandes potências. Hoje chama-se, simplesmente, PETRÓLEO. O ouro do século XXI. O resto é poeira para os olhos, conversa para a rapaziada se entreter e para os politólogos (!) sacarem mais umas massas.

É isso, Chávez: asco, asco.

José Agostinho Baptista

21/03/11

Não é música



Não é música o que ouvimos.
Não é de água este brilho de prata.

Eu estou aqui sobre as pontes do rio.
Outros são os que espreitam pela bruma das margens.

Talvez me lembre:
tu vinhas devagar pelo lado das acácias.
Cingias cada árvore e as colunas, os braços de um
deus cruel, o saber dos templos.

Não é um salmo o que ouvimos.
Não é de harpas este lamento,
não é o ofício das mãos esculpindo um rosto,
não é a palavra de deus que ecoa nas escarpas.

Algures te ocultas e não deixas sinais.
Quem és tu
cujo perfil se desvanece, cuja doçura se perde nos
confins da tarde?

Eu estou aqui onde se unem as margens, onde escurecem
as sendas e as sombras,
onde correm as nuvens, as pedras, as águas.

Outros são os que te aguardam pelo lado das acácias.


José Agostinho Baptista

(... É bonito celebrar a poesia, essa entidade que se atropela em palavras que nascem no coração e, tantas vezes, se articulam num protesto, porque "a poesia é uma arma").