14/03/11

Eu tinha tudo!

Eu tinha tudo: umas mãos pequenas e às vezes uma sombra
no olhar. Era meu aquele ar velhamente abandonado nas ca-
sas mais baixas, baixando-se mais, abandonando-se. Eu ti-
ve tudo o que teve esse tempo: o verde sepultado no olhar, o
gesto de recolher prata em minha boca, um peixe que nada-
va nas minhas lágrimas até ao caule da chuva, um cansaço in-
findo e vermelho, uma enorme raiz onde as folhas da minha
pele iam buscar semanas, meses, para alimentar as fracções
de segundo do meu corpo.
Eu tinha tudo: a ternura que, como um copo, nunca se gasta-
va. O coração extenuado pela água, a face polida pelo amor.
Quantas vezes agarrei o som que rompia as cerejas? Quantos
dias curei as feridas do rosto de uma nuvem? Eu tinha tudo o
que a chuva me deu e me deu o sol. Conhecia as nascentes
das amoras e do vento. Era aí que eu semeava a lua, cobrindo-
-a de ervas. Quando voltava para a ver ela tinha crescido e já
aparecia atrás dos troncos escuros saídos do chão, parecen-
do uma moeda branca meio introduzida no mealheiro da ter-
ra. Aos poucos fui desgastando os olhos e a memória. Um dia
descobri que já não possuía coisa alguma e vi que as pessoas
corriam assustadas, como se acabassem de roubar-me tudo.

Joaquim Pessoa

09/03/11

Mulheres e Revolução - porque hoje é também dia da mulher!



Um poema de Maria Velho da Costa declamado soberbamente por Mário Viegas! Lindo!!!

08/03/11

Dia da MULHER, sim! (todos os dias)

Todos os anos a mesma discussão de café: que não faz sentido o dia da mulher, que já não se justifica e outros argumentos fastidiosos que depressa me ensombram o sorriso e me conduzem teimosa e convictamente ao mesmo: faz sentido, sim!, que haja um dia que, colectivamente, todos se mobilizem para a reflexão desta problemática. E vinco assim mesmo: problemática!, de solução distante, difícil, morosa, enredada de retrocessos e quezílias absurdas de sexos.
Repetirei em cada dia que viver que esta é uma luta necessária! A luta pela igualdade de direitos dos géneros, seja em que circunstância for, laboral, social, política, intelectual, humanitária, salarial...
O meu protesto estende-se a todo e qualquer mau-trato, seja ele visível e dimensionado socialmente e com repercussões jurídicas, ou velado, por situações ainda não puníveis por lei pela dificuldade ou impossibilidade de demonstração, como os abusos verbais e comportamentais, a humilhação, o destrato, o abandono, a deslealdade, a desconsideração (não raras vezes por "companheiros")... e meramente porque se é MULHER!

Reitero outra vez (sempre!) o meu tributo e gratidão:
- às mulheres que morreram queimadas em Nova Iorque por lutarem pelo justo lema "igual trabalho, igual salário". Eram usadas como fonte de produção e com salário inferior só porque eram mulheres. Volvidos mais de cem anos essa discrepância continua a ser factual ...
- às sufragistas, perseguidas e torturadas, por reivindicarem o direito à participação activa da mulher na sociedade, pela expressão dignificante de cidadania, que é o voto.
- às mulheres de São Petersburgo pela luta estóica que travaram - imagine-se porquê! - para resgatar o "pão e a paz".
- às três marias, em Portugal, pela sua obra feminista, pela sua determinação, pela sua persistência na luta para atribuição de dignidade a esta condição (de que me honro, confesso) de se ser Mulher.
- e a tantas outras anónimas que fazem do combate às mutilações genitais, à prostituição, ao esclavagismo sexual ou laboral, à pedofilia, à violência doméstica, à misoginia, ao abandono geriátrico, ao assédio sexual, aos assassínios em nome da cultura ou religião, e tantos outros maus-tratos a mulheres, a sua causa de vida, com sacrifícios inimagináveis, que incluem a própria vida !

A luta continua! Pela igualdade entre os Homens! Por um colectivo mais justo!

06/03/11

6 de março de 2011- 90 anos! - PARABÉNS :))

"Comemoramos o 90.º aniversário do PCP. Em luta, como é próprio de um partido que fez das suas nove décadas de existência um tempo de luta constante, travada em todas as circunstâncias e enfrentando todos os obstáculos – assim se afirmando como um caso ímpar no quadro partidário nacional.
Na verdade, com a fundação, em 6 de Março de 1921, do Partido Comunista Português – correspondendo a uma necessidade histórica da sociedade portuguesa – nascia um partido de novo tipo, com características específicas, diferente de todos os existentes à altura.
Diferente, desde logo, pelo seu objectivo supremo – a construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados, a sociedade socialista e comunista – e, por isso mesmo, diferente no assumir das exigências que tão ambicioso objectivo comporta.
Diferente, sempre, na prática e na postura em todos os momentos e situações – e de forma inequívoca quando, face à ordem salazarista de dissolução de todos os partidos políticos, foi o único a dizer «não» e a optar pela resistência ao fascismo, vindo a sagrar-se como o grande partido da resistência e da unidade antifascistas.
Diferente quando, no tempo novo de Abril, foi força motriz do processo revolucionário que, com as suas grandes conquistas, viria a transformar profunda e positivamente a realidade nacional.
Diferente – nestes 35 anos de contra-revolução – na sua postura face à política de direita: no seu empenho na mobilização para a luta pela ruptura e por um novo rumo para Portugal; na apresentação de propostas visando combater as consequências dessa política de desastre nacional nas condições de trabalho e de vida da imensa maioria dos portugueses; na sua intervenção em defesa da soberania e da independência nacionais; na luta por uma democracia avançada inspirada nos valores e nos ideais de Abril.
E se sublinhar esta diferença é sempre importante – mais ainda o é quando, como acontece actualmente, se desenvolve uma intensa operação visando a aceitação da ideia de que «os partidos são todos iguais», com isso se pretendendo ocultar a singularidade do PCP, o facto por demais evidente de ele ser, como os seus 90 anos de vida e de luta mostram, um partido diferente dos que são todos iguais.
Comemoramos o 90.º aniversário do PCP num tempo em que aos militantes comunistas se coloca um conjunto de importantes e incontornáveis tarefas, respeitantes quer à necessidade de dar resposta firme à política de direita e aos danos que provoca aos trabalhadores, ao povo e ao País; quer no que respeita à necessidade de reforço do Partido da classe operária e de todos os trabalhadores.
Num tempo, também, em que, como a experiência tem vindo a demonstrar, a luta organizada dos trabalhadores se apresenta como o único caminho para dar a volta a isto e para construir a mudança.
Às importantes e poderosas lutas dos últimos meses – das quais emerge como momento maior a histórica Greve Geral de 24 de Novembro, erguida por mais de três milhões de trabalhadores – há que dar a continuidade necessária, prosseguindo-as, intensificando-as e atraindo a elas novos segmentos das massas trabalhadoras, de modo a torná-las mais eficazes com vista à concretização dos objectivos desejados.
Nesse sentido, é fundamental fazer da jornada de luta de 19 de Março uma muito grande manifestação, fazendo desse dia o dia da indignação e do protesto, da convergência de todos os descontentamentos e insatisfações, da exigência de mudança e de um novo rumo para Portugal – uma muito grande manifestação que será possível com um intenso e amplo trabalho preparatório, esclarecendo e mobilizando os trabalhadores e as populações, demonstrando-lhes que, ao contrário do que dizem os propagandistas do grande capital, a luta não só vale a pena como é indispensável para travar o declínio e o afundamento do País.
E hoje, como ao longo dos últimos noventa anos, os militantes comunistas ocupam a primeira fila da luta – com isso marcando a diferença em relação a todos os outros partidos.
Comemoramos o 90.º aniversário do PCP no momento em que o nosso grande colectivo partidário leva por diante a importante acção «Avante! Por um PCP mais forte!», visando o reforço orgânico, interventivo e ideológico do Partido. Com a consciência de que quanto mais forte for o Partido, mais forte será a luta – da mesma forma que o reforço da luta conduz ao reforço do Partido.
E o Partido reforça-se juntando mais e mais militantes ao nosso grande colectivo partidário – designadamente jovens militantes; ampliando e tornando mais estreita a sua ligação às massas – reforçando as células já existentes nas empresas e locais de trabalho e criando-as ali onde elas não existem; assegurando a actividade dos organismos partidários, no quadro do seu funcionamento democrático e do trabalho colectivo; elevando a consciência política e ideológica dos militantes e dos quadros; dando continuidade à luta levada a cabo por sucessivas gerações de comunistas ao longo das últimas nove décadas e que, no momento actual, tem como objectivo primeiro pôr fim à política de direita e construir a alternativa, sempre tendo no horizonte o socialismo e o comunismo – enfim, afirmando e defendendo a identidade comunista do Partido, sua fonte de força essencial e sua marca distintiva.
Muitas são as razões para nos sentirmos orgulhosos por estes noventa anos de vida e de luta que agora comemoramos – e para assumirmos o compromisso de, honrando o exemplo das gerações de comunistas que nos antecederam, sermos seus dignos continuadores."

José Casanova, in Avante! de 3 de Março de 2011

04/03/11

O sítio mágico

Por que é que agora não existe um sítio mágico
como aqueles que eu tinha na infância? Serão eles
que não existem ou fui eu que os perdi? Ou será que o meu
olhar
já não entende de magia? Às vezes olho-me nos olhos
tentando desvendar-me, descobrir a verdade, mas sinto isso
tão idiota
como tentar comprar uma moeda
com outra absolutamente igual. Procuro ainda, mal esta vida
me vira as costas,
o erotismo de uma sombra num recanto afastado da luz,
a mistura de humildade e orgulho que me vem de uma
antiga relação com a terra,
a confirmação de que não me reconheço nem me aceito
fora de todos os sítios azuis, de privilégio. Procuro,
e é como se falasse aos sete anos a sós com a minha mãe,
depois de a desiludir: não posso ser tomado muito a sério.
Não sei até como reagirei se voltar a encontrar um sítio
assim,
depois de tanta falta de magia no mundo. Provavelmente,
de uma forma patética, como o judeu que em Dachau,
já sem lágrimas viu morrer ano após ano milhares de
crianças e homens e mulheres,
e não conteve o riso no dia em que foi libertado, quando
encontrou um funeral
onde centenas de pessoas choravam a morte de uma só.
Procuro ainda o sítio mágico e não sei se não acredito nele
ou se já não acredito em mim. Se a minha relação com o
mundo
é tão exposta como uma transmissão televisiva.
Procuro-o porque me sinto pontapear os horizontes
ou porque os horizontes estão tão fechados que embirram
com os meus pés.
Porque me sinto um amante cheio de lágrimas que não quer
deixar fugir o amor,
porque na minha memória não deixam de correr regatos que
hoje já não correm,
porque todos os dias, pontualmente, me sinto um saco
cheio de ofensas,
porque a língua que eu falo se debate como um peixe
náufrago,
porque os meus ombros suportam a noite e suportam o dia
e suportam a verdade do que eu digo,
porque me sinto carpinteiro e árvore ao mesmo tempo,
porque perto de mim e longe de mim há coisas que estão
para lá do meu alcance,
porque o tempo me recorda que a minha viagem está mais
próxima do fim,
porque vá para onde for não sinto minha nenhuma janela do
mundo,
porque estou cansado e quero respirar e o ar está cheio de
gritos,
porque há gente que eu amo nas minhas palavras tentando
libertar-se de mim,
porque me observo e me contradigo, porque tenho ainda
coragem para o espanto
e porque me falta o espanto, e me falta um sítio para o
espanto
e eu sei que para estar vivo terei de viver sem ele.


Joaquim Pessoa

28/02/11

Por Brecht:


Ah! Desgraçados!
Um irmão é maltratado e vocês olham para o outro lado?
Grita de dor o ferido e vocês ficam calados?
A violência faz a ronda e escolhe a vítima,
e vocês dizem: “a mim ela está poupando, vamos fingir que não estamos olhando”.
...Mas que cidade?
Que espécie de gente é essa?
Quando campeia em uma cidade a injustiça,
é necessário que alguém se levante.
Não havendo quem se levante,
é preferível que em um grande incêndio,
toda cidade desapareça,
antes que a noite desça

27/02/11

Ainda o Zeca...

Por Baptista Bastos:

Zeca Afonso morreu há 24 anos [23 de Fevereiro de 1987], com uma doença atroz: esclerose lateral amiotrófica.
Tinha 57 anos e manteve, até ao remate dos dias, aquele sorriso meio-cândido, meio-malicioso, que lhe conferia o ar de menino de sempre. Pouco tempo antes conversámos numa leitaria à entrada das Escadinhas do Duque, das duas ou três tertúlias da zona a que chamávamos o Triângulo das Bermudas. Não era um local de perdição, ao contrário do que a alcunha pode querer dizer. Mas os encontros poderiam levar-nos pela noite adiante.Os mesários dessas reuniões eram, entre muito outros, fixantes e passantes, Herberto Hélder, António José Forte, António Carmo, Aldina Costa, José Carlos González, Ricarte-Dácio de Sousa, Adriano de Carvalho, Serafim Ferreira, Teresa Roby, Luiz Pacheco, os actores Fernando Gusmão e António Assunção, e por aí fora. Olho para trás e reconheço que esses encontros são irrepetíveis, não só porque a morte já fez a sua ceifa como pelo facto de a atmosfera moral e afectuosa ser, agora, muito diferente. Frequentei aqueles grupos durante anos. O "Diário Popular" era ali perto e dava-me jeito ir à bebida e à conversa com amigos, alguns dos quais (o Herberto, por exemplo) vinham dos bulícios da adolescência. O Zeca Afonso não era habitual; mas, naquele fim de tarde, sentou-se para conversar sonhos e esperanças tão antigos como o homem. "Estou a morrer devagarinho", disse-me. E a voz era como se viesse do fundo do corpo. A frase impressionou-me pela coragem. Ele sabia que estava condenado e talvez quisesse dizer-me que o sabia. Falou, logo a seguir, de outras coisas. Olhava para este homem novo, atingido por uma doença medonha, e recordava a generosidade limpa e aberta de alguém que dera tudo a todos e oferecera à Revolução o seu hino definitivo. O Viriato Teles, grande jornalista que os senhores dos jornais têm laminado mas não destruído, escreveu, sobre o amigo e companheiro, páginas definitivas, e conhece, como ninguém, a dimensão da grandeza de uma pessoa rara. Mas o País ainda não homenageou o poeta admirável e o cantor de palavras claras que esteve sempre com as causas justas, as batalhas necessárias e as urgências que a História exigia. Melhor do que nós, fazem-no os galegos, para os quais José Afonso é um marco e um símbolo da dignidade e da probidade humanas. Os textos de "intervenção" que escreveu pertencem à mais rigorosa selecta da lírica portuguesa. Provêm, directamente, das fontes medievais e da tradição de combate e crítica da grande poesia. Zeca Afonso não facilitava a interpretação dos seus poemas. A diversidade de leituras que propõem sugeriu muitos estudos no estrangeiro e o respeito de duas ou três gerações que ele distinguiu com a lição de um desprendimento total. Comparar a obra do poeta às "cançonetas" "dos" Deolinda, como por aí se tenta, é um ultraje e uma demonstrada ignorância. Mas estas comparações não são ingénuas. Fazem parte do arsenal de apoucamento do Zeca, que um sector da vida portuguesa deseja, há muito promover. É desnecessário. A força, a qualidade do imenso trabalho criador do autor de "Traz outro amigo também" não sofre paralelismo com outro qualquer. O que não passa de uma funçanata divertida e trôpega dificilmente poderá ser levada a sério e entendida como "intervenção social e ideológica." As comparações são propositadamente estabelecidas (inclusive por alguma Imprensa desprezível) para fomentar a confusão e enganar tolos. A estratégia não é nova. Ainda há quem não perdoe a Zeca Afonso a magnitude do seu talento e o cariz de uma arte que sempre recusou o panfleto sem desprezar a intenção de revolta. No dia 23 de Fevereiro completaram-se 24 anos sobre a data da morte de um grande poeta português. É muito bom que, sob outras roupagens, a sua música e as suas palavras sejam cantadas pelo pessoal mais novo e ouvidas por todos aqueles que possuem da arte um conceito diferente porque superior. Quanto a mim, que fui amigo deste português incomum, deste artista sem paralelo, recordo-o com emoção, encantamento e orgulho. Ele faz parte do nosso comum património moral, ética e estético.